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Minha Terra Mais Pequena

Obra composta por sugestivos poemas nos quais a autora confessa o seu carinho pelo Minho, mais concretamente, por Viana. O leitor é levado a conhecer o clima, os espaços, a gente, os costumes vianenses, não deixando também de acompanhar a cor, a alegria e a magia da Romaria da Senhora da Agonia. A paixão pela Princesa do Lima percorre toda a obra, não abdicando a poetisa de formular o seu último desejo: “Quero adormecer, um dia, /aos pés de Santa Luzia.” (…) “Onde o sol da romaria / me entorne o oiro por cima. /Onde cante o vento leste”.

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Conheça o autor

"Filha do capitão de artilharia José Vicente da Silva Sena, de Elvas, e de D. Augusta de Belfort Cerqueira, do Rio de Janeiro, Maria Emília Vasconcelos nasce em Lisboa a 31 de Dezembro de 1912, fixando residência em Viana do Castelo, a partir de 1973, terra de seu marido Francisco Luís de Vasconcelos Costa e Melo. Poetisa e memoralista, o seu nome surge ligado, também, à divulgação etnográfica, com particular relevância para as questões relacionadas com o traje regional. Inicia a sua actividade literária ainda jovem, obtendo diversos prémios em concursos e jogos florais no âmbito do conto, poesia lírica, sonetos e até teatro.Colabora em vários jornais locais e na revista de cultura "Cadernos Vianenses". Pertenceu à Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Alto Minho e ao Centro de Estudos Regionais de Viana do Castelo. Em 1996, a Câmara Municipal de Viana do Castelo atribuiu-lhe a medalha de "cidadã de mérito"."
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972-588-059-5

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Ilustração

Prefácio

PARA UMA TERRA MAIOR

Maria Emília Sena de Vasconcelos confessa-se para a sua biografia: “Eu nasci longe”.

Nasceu, de facto, em Lisboa, sua «terra maior», longe do Minho de Viana, onde teve raiz e criou raízes: “São minhotos os meus netos/ corno era o meu avô”.

Do berço distante e vasto, “não trouxe saudades”, E, nesta Viana, sua “terra mais pequena”, mas notoriamente mais amada, nasceu-lhe, por amor, o presente livro de poesia, todo ele dedicado a louvá-la, nas suas paisagens, monumentos, hábitos e gentes.

Em outras ocasiões, teve a autora ocasião de, numa visão minuciosa e sábia, lhe desvendar a história singular, nos factos mais relevantes; de lhe estudar o perfil arquitectónico, no alarde de muitas casas nobres da urbe, memorando as famílias que as habitaram, com suas prosápias e fraquezas e a opulência de muitas igrejas e capelas oiradas de intrincada talha, com a relação dos seus piedosos oragos e devotos fundadores. (E mereceu-lhe, agora, versos de admirável vigor o túmulo filipino que a igreja de Santo António, esse soberbo exemplar do barroco português, acolheu, onde jaz o cavaleiro do século XVI, António Miz da Costa, falecido no século seguinte, sob o domínio de Castela, que ali, “despindo o ferro/vestiu granito”.)

Em Viana, o coração de Maria Emília Sena de Vasconcelos “é irmão/do Chão/onde tudo é são/ e natural”. E de Viana, “olhando em volta”, a escritora extasia-se com a terra que “cheira a resina e a sal” (os campos e o mar), cantando-a em versos de ritmo ágil, bem rimados e de feliz espontaneidade.

Vê-a no passado, “olhando atrás”, quando percorria, pela mão paterna, aquela “estrada plana” da Areosa, onde Junqueiro achara inspiração para celebrar A Moleirinha, com o burrico “toque, toque, toque”, .. Ou quando, mais saudosa ainda, recorda o chafariz do Campo do Forno, onde afluíam as bilhas sequiosas, erguidas à cabeça pelas «”tricaninhas” das fontes/de avental e de chinelas», tão festejadas, nos primórdios deste século, pelas liras locais de Salvato Feijó e de Emesto Sardinha.

Do mar, traz-nos Maria Emília Sena de Vasconcelos a alegria sonora dos pregões peculiares das nossas peixeiras, levando na canastra “o cheiro à lota”; a descrição comovida da procissão da Senhora da Agonia, quando, barra fora, a Santa parte para abençoar as ondas, rezando, como diria António Nobre, tão próximo destes versos, a Ladainha das Lanchas; e mais o ímpeto dramático do “naufrágio à vista”, culminando com a morte do arrais, “com tanto sol entornado/no peito rijo e no rosto/tisnado”.

E dos campos (nostalgicamente, a poetisa lembra os de Perre, outrora fecundos, “vestidos de luz amena”, “entretecidos com pinheirais”, agora sem viço, numa poesia onde julgo escutar ecos do estro do Conde de Monsaraz); dos campos em plena romaria, traz-nos a alacridade e bulício da feira aldeã (Vamos à Feira é, quanto a mim, uma das peças líricas mais conseguidas deste livro: tela ar-librista de intenso e exacto colorido); o arruído do foguetório, enquanto o baile entontece; o labor e o lavor, nas lides das leiras e na arte da rendeira, da fiandeira e da delicada criadora de palmitos de festa.

Das gentes minhotas, que a história fixou, ora com o sarcasmo feroz de Camilo Castelo Branco, ora com a compreensão e carinho de Luís de Magalhães, apresenta-nos Maria Emília Sena de Vasconcelos o retrato flagrante do “brasileiro” de torna-viagem, construtor de chalés “a dar nas vistas”, bom e generoso, tão generoso e bom como o actual emigrante. A ambos, a poetisa confessa a sua estima: “porque à meta de tomarem/ ao lorrão onde nasceram/ uns e outros se ativeram./ Constantes”.

E que sugestivos os dois poemas sobre antigos solares da nossa Ribeira-Lima! Um, lembra, doridamente, os paços abandonados, com o seu tempo de esplendor para sempre perdido; o outro, pelo contrário, é um “desafio ao derrotismo”, revigorado na tradição, e a poetisa dá, como exemplo, a pontelimense Casa de Aurora.

Do amor a Viana de Maria Emília Sena de Vasconcelos, salienta-se o seu culto fecundo, de há longos anos, pelo trajo à lavradeira, quer de festa quer de trabalho. de que possui uma preciosa e gabada colecção.

Culto sobejamente reflectido neste livro, imprimindo-lhe uma riqueza etnográfica de alta valia.

Logo no Vaivém no Tempo, remirando a filha trajada com o mais belo fato rural do mundo, a poetisa exclama: “Olhem como ela veste bem/ o colete de varas, vidrilhado/ que faz a cintura fina,/ e a saia rica que arredonda a anca/ com a noite doce em barra de veludo/ e o sol macio no cetim dos folhos … / / ( … ) / do oiro sem par do seu grilhão/ ao par de brincos “à rainha”/ que a par do lenço lampejam … / ou da libra da “peça” ­que lhe invejam … / ao escudo real/ da frente do avental! (pendão que oscila, no ondular dos passos,/ todo bordado a “contas de luar” … )”

Este “velho traje/da mordomia”, que “torna a rapariga linda”, ostenta-se, hoje, galhardamente, no cortejo etnográfico da romaria da Senhora da Agonia, e, no poema Mordomas, a escritora volta a descrevê-lo: “Também de negro trajada/ vem a mordoma ao cortejo:/ mas traz um lenço encarnado/ como vistosa moldura/ do vago sorriso-beijo”. Igualmente Maria Emília Sena de Vasconcelos vestiu este vestido no cortejo da mordomia e “chinelava a preceito”, com aquelas chinelinhas que são um dos maiores encantos do fato à vianesa. E “chinelando… chinelando…”, lá seguia, brilhando-­lhe no peito ufano a “custódia”, os brincos “à rainha”, a “laça” e o grilhão que “hoje, lá vão/ ao peito da filha” e da nora.

O fato de trabalho usa-o a velha fiandeira (“saia velha, de riscas; preta e vermelha”).

E o da boieira é fielmente retratada deste jeito: “O grande, grande chapéu/ é um sol de palha–centeio/ doirada; Com a luz a escorrer em franja; entornada/ no lenço cor de laranjal do seio./ /Na saia curta, de lã, de cós redondo na anca,/ a lista fina, apertada, parece chuva miudinha/preta e branca; axadrezada/ com a larga barra-enxurrada da bainha!/ /E a lã álacre que tece/ o quadrado do avental/ é quente, quente e vermelha:/ tal qual! o sangue da leira chã/ – que nunca, nunca envelhece; por sinal…” E “quando a moça vai à praia/ colher o sargaço» ei-la de “lavada sapatilha”, “saia/ branca. Franzida. De linho”. E “quando a moça vai ao monte” enverga “a escura «fraldinha» urdida em grosso/ a saia de encosta/ posta,/ posta a luva para o roço.! sobre a foicinha.! – na perna lisa e lustrosa.! cautelosa,/ enfia a bota grosseira”. E a moça que espadela a cantar! Essa, “tem uma blusa amarela/ de chita;! um lenço cor de canela; uma larga saia escura; um aventalito roto;/ uma laçada de fita/ nos tamancos de madeira”.

Enfim, Maria Emília Sena de Vasconcelos faz-nos também apreciar, neste livro, com fino deleite, alguns dos variados trajas da mulher vianesa, tecidos em versos de bom tear, bom desenho, boa cor e bom-gosto.

Quase sempre as ilustrações de Manuel Couto Viana acompanham os pormenores, a beleza da descrição. O artista foi um dos principais estudiosos do fato à lavradeira, que ajudou a recuperar nos inícios deste século. E foi, bem no sabe a poetisa, seu mestre no amor e conhecimento da sua história, não longa mas fascinante.

Adivinho a satisfação e o orgulho que Manuel Couto Viana sentiria ao ver-se figurar nas páginas desta Minha Terra mais Pequena!

Terra que tanto ele como Maria Emília Sena de Vasconcelos, com os primores respectivamente da sua arte e da sua poesia, tornaram maior.

Lisboa, 13 de Março de 1994

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

Excertos

SINGELO INTROITO

Minha terra mais pequena,
à qual inteira me dou:
são minhotos os meus netos
como era o meu avô

Eu nasci longe.Porém
de raiz minhota.
E ao Minho me restituo,
por escolha.Só.Devota.

Minha terra mais pequena:
cresce com tino…sem pressas,
para que os filhos que tens
não te esqueçam – e não esqueças…

…que a minha terra maior
tantos filhos agregou
que, se algum lhe falta, nem
se dá conta que faltou!

Dela… não trouxe saudade
que pese mais que uma pena…
(pesa-me, até, que assim seja
-mas assim é, na verdade).

…minha pequena cidade…
…minha terra mais pequena…

GENTE DE VIANA – OLHA VIANA!

Gente de Viana, olha Viana.
Aprende a vê-la
com os olhos de quem, partindo,
deixou de olhar para ela.
Gente Viana, repara
nesta urbe-jóia-rara
(cediça imagem-perdão!)
E dá-lhe espaço, afinal,
no cofre-forte
do coração.

Gente de Vina, que mal,
que dano te causaria
a Viana-moça-escorreita
que se enfeita
para os de fora – e os seus?
Tem tranças de vinha verde.
E asas livres de gaivota.
Cheira a resina e a sal.

…o tédio é poeira
que desdoira e embacia
a própria obra de Deus!

Gente de Viana,
nas horas vagas do dia
toma, em paz, o teu café,
conversa disto e daquilo…
boceja, até.
Mas desce,depois, a pé,
(cumprimentando, à passagem,
cada rua do passado)
a ver o Lima tranquilo.
E como ele se arrepia,
cada tarde, junto à margem,
em nacarado
arrepio…

Gente de Viana:
olha o teu rio!

CHINELANDO…

Ano a ano, quando vejo
Passar na Praça o Cortejo
Da Mordomia,
Sobe-me aos olhos da alma
Um marejo
De saudosa…de vaidosa
nostalgia.

Já fui mordoma, também!
A vida – oirava-me o riso.
O luxo – oirava-me o peito
O sol oirava
O caminho.
– E chinelava a preceito,
como quem canta, com passos,
mais uma cantiga
ao Minho…

(E também a cantam bem
as chinelinhas de agora
por essa Viana fora)

A minha “custódia”, os brincos
“à rainha”,
mais a “laça” e o grilhão,
hoje, lá vão
ao peito da filha minha,
ao peito da minha nora…
E eu corro de esquina em esquina
A remirar os meus trajes
De menina…
…noutras, embora.

– Tudo, no tempo, é vaivém.
Chinelando…chinelando…
Já fui mordoma, também…

O VELHO ARRAIS…

Corpo curvado,
– no jeito dos pinheirais
batidos logo à nascença
pela nortada…

Roupa que cheira a pescado.
Olhos mansos. Sem pecado.
Mas com a salgada querença
De olharem longe, distante,
As velas de outros arrais
Que ele acha novos demais
Para irem, tão cedo, ao mar
Tão inconstante!

…Se os temporais a pouparam,
não é na cama, é na areia
que a vida dos que embarcam
bruxoleia.

E quando for enterrado
Este velhinho
Com tanto sol entornado
No peito rijo e no rosto
tisnado,
será
tal qual
como se o próprio sol posto
trocasse o leito das ondas…
por um coval…

De Caminha até ao Neiva,
Em cada praia do Minho
(como nas mais…),
vagabundo todo o dia
ou nos areais,
a dizer adeus ao largo
(que com dó – sabe-se lá!
que se alguém do coração
ganha amor
ao ganha-pão,
esse alguém do coração
ganha amor
ao ganha-pão,
esse alguém é o pescador.)

há sempre, e sempre haverá
um perfil assim, amargo,
como o que agora me prende
a atenção…

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