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O Sr. Jesus – Monografia do Cristo da Infantaria de Viana

O corpo da obra O Sr. Jesus – Monografia do Cristo da Infantaria de Viana está dividido em três partes temáticas:

I. Luiz do Rêgo
II. O Senhor dos Quartéis
III. A Devoção

Segue-se um Anexo composto de sete notas intituladas: Nota I – A triste Praça; Nota II – A propósito de um letreiro; Nota IV – A inscrição malograda; Nota V – Principais efemérides do 3; Nota VI – A casa do Assento (Padaria Militar); Nota VII e última – Adenda

Ao longo da obra, o leitor é guiado, segundo o autor, numa «pequena digressão pela cidade e pelos tempos idos». Seguindo o trajecto desde a Praça da República, através da Rua General Luis do Rego até ao Quartel de Infantaria 3, o autor vai tecendo comentários sobre lugares e gentes vianenses da sua actualidade, confrontando-os com aspectos do seu passado.

A primeira parte do livro é dedicada ao «escorço da personalidade» do general Luis do Rego Barreto «a quem se consagrou esta rua de Viana», «…um dos oficiais portugueses de patente superior que comandaram tropas na Guerra Peninsular…”O bravo Luiz do Rêgo”… com esse mesmo atributo foi conhecido e apontado no transcurso dessa campanha…».

Na segunda parte do livro – O Senhor dos Quartéis – o autor faz a descrição do Cristo existente no quartel, justificando a sua designação (1) e levanta questões sobre a origem (2) da devoção como patrono da Infantaria de Viana, talvez iniciada aquando da Guerra Peninsular.

Na terceira parte do livro – A Devoção – descreve o seu testemunho de um culto à imagem – em tempos provavelmente organizado e suportado financeiramente (3) – que extravasava as paredes do quartel, estendendo-se à população circundante (4).

(1) ver excerto 1
(2) ver excertos 2 e 3
(3) ver excerto 4
(4) ver excerto 5

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Conheça o autor

"«ERNESTO SARDINHA, de seu nome completo Ernesto Firmino Trindade Sardinha, nasceu em Lisboa (freguesia de Santa Cruz do Castelo) a 5 de Maio de 1888. Após o Ensino Primário feito em Lisboa, frequentou o Liceu de Évora, vindo mais tarde (o seu pai, oficial do exército, estava sujeito a estas andanças) para o Liceu de Viana do Castelo, onde concluiu o sexto ano, tendo o sétimo sido feito no Sá de Miranda de Braga, visto ao tempo não o haver aqui. Sucessivamente fez os preparatórios militares na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, de onde ingressou na Escola Militar. Concluído aqui o curso, e por força da 1.ª Grande Guerra, integrado na Brigada do Minho seguiu para a Flandres, onde combateu como oficial.Regressado a Viana, a sua querida Viana, terra escolhida como sua por opção, aqui viveu até ao seu falecimento, em 14 de Setembro de 1950.» Em 1922, em edição da revista Lusa de Cláudio Basto e Pedro Vitorino, Ernesto Sardinha publicou as suas primeiras poesias, já divulgadas em jornais vianenses (Aurora do Lima, O Povo, Folha de Viana). Para além de tenente-coronel do exército, foi jornalista, poeta, escritor com diversos livros publicados, tendo também realizado conferências e palestras. Foi colaborador e director do jornal Aurora do Lima, cargo que desempenhava à altura da sua morte. Nota: Biografia elaborada pelo filho do autor, complementada com dados recolhidos na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira"
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Excertos

Excerto 1

«(…) peça o leitor para entrar e entre (…) pode estacar sob o arco de pedra, confinante com a parada (…) mesmo na frente, ao nível do primeiro andar, um nicho com Cristo crucificado. Não é um nicho rudimentar nas proporções ou na apresentação (…) este é amplo e rasgado, alto por certo como um homem, largo como dois braços estendidos, mostrando compostura em sua fábrica: exibe um debruado de cantaria a rematar com ornato na soleira, resguarda-se com uma porta toda ela envidraçada e pompeia além disso forrado interior a tábuas pintadas de azul celeste com matiz de estrelas de oiro; não lhe falta ademais uma lanterna a cada banda, erguidas em varão serpentinado, e como vistoso remate, cativante pormenor decorativo a sobressair das paredes caserneiras – a graça de um tejadilho privativo, pirâmide quadrada avançando como dossel. Dentro, um crucifixo de madeira.

Em quaisquer outras circunstâncias de local a existência deste tributo de piedade nada conteria de extraordinário (…) mas aqui, na parada de um quartel, é deveras surpreendente, e para mim, confesso, até se torna encantador, como motivo estético não apenas, oásis único para a vista de quem tenha de demorar adentro da parada, mas também como relíquia de antepassados, testemunho patente da sua maneira de ser, desse exacerbado sentimento religioso (…)
Como é de preceito regulamentar em quartéis – “cada compartimento terá, na verga da porta, escrito o fim para que se destina” – não poderia o nicho exceptuar-se e, obedecendo à regra, lá está a inscrição, não na verga, onde se apagaria à sombra do telhado sobranceiro, mas em evidência na soleira, em negros caracteres pintados, que dizem exactamente:

O SR. JESUS DOS QUARTEIS
DE VIANNA
ANNO 1790

Se a tinta não é da primitiva, vou jurar que os caracteres são os mesmos ali postos há cento e quarenta e seis anos (…) O Sr. Jesus! Coisas de tempos idos! Aquela abreviatura, SR., não é certo que atrai irresistivelmente um sorriso, não de mofa incivil ou soez, mas de complacência veneradora?

Mas vamos à data (…) prontamente estabelecemos que a inserção do nosso nicho militar foi parte integrante do alçado projectado para a construção do quartel. Seria anterior a esta criação da imagem militar sob o invocativo de Senhor dos Quartéis? Ou surgiria a ideia de o instituir como patrono do Regimento de Viana precisamente do facto de se construir um quartel novo?»

Excerto 2

«(…) Mas sobretudo era empolgante a absorção religiosa, a qual, à própria época da fundação do quartel de Viana, se condensa, adentro dos negócios militares, na célebre circular expedida às tropas, após a entronização de D. Maria I, determinando que “não deixasse de pontualmente rezar-se o terço em todos os quartéis!”»

Excerto 3

«E assim aquele crucifixo que ali está, fez toda a Guerra da Península, levado deste quartel como talisman da Infantaria de Viana para as incertezas e perigos duma campanha contra as mais temíveis tropas desse tempo. Sobre aquela imagem convergiram os olhares suplicantes, as preces e os rogos do Regimento do nº9. Ela foi, no decorrer de quatro anos. a fonte da esperança e da resignação nas fileiras desse distinto Regimento e, pela crença no seu poder sobrenatural, pela confiança na sua protecção, decerto criadora d estímulos e de afoitamentos. Esteve no Buçaco, em que o 9 se estreia brilhantemente, participando dos contra-ataques, que caracterizaram a batalha; conheceu os entrincheiramentos de Tôrres Vedras; estacionou em povoações da Beira; teve por cúpula estrangeiros céus, alçada em altares de circunstância durante as missas campais rezadas de lés a lés da Espanha e na própria Navarra francesa.»

Excerto 4

«Não sei se ainda existe no quartel do 3 um velho livro de escrituração respeitante ao Senhor dos Quartéis. Qual seria o recheio daquele manuscrito, que apenas uma vez e por acaso se me deparou? (…) só conservo esfumada reminiscência de conter o lançamento de receitas e despesas. (…) se a caixa de esmolas existiu, como é possível, foi suprimida (…) se conclui que as dádivas pecuniárias eram recebidas e arrecadas, do mesmo passo se verificando a fé na imagem e a sua notoriedade; e além disso se legitima a suposição de que entidades haveria, expressamente designadas, a quem por uso ou estatuto estava confiada tal administração. Formar-se-ia após o regresso da Guerra Peninsular, e sob a influência ou em concordância com as devidas homenagens ao padroeiro, alguma irmandade privativa dos militares da Infantaria local ou similar organização? Porventura, o cartapácio desse a resposta ou proporcionasse achegas para inferi-la afirmativamente.»

Excerto 5

«Dádivas em azeite, dessas me recordo serem frequentes inda na década passada (…) bastas vezes vi, no transcurso de anos, alumiar o nicho com azeite ali deixado por mãos devotas, atestando assim a subsistência do culto por este Cristo militar.(…)
A um voto de dura execução assisti eu, cuja notícia aqui tem o seu lugar. Uma tarde, em que estava de serviço, veio onde a mim um graduado, já então na reforma, pedir autorização para que a mulher, depois do toque de silêncio, entrasse no quartel, pois queria ela desobrigar-se nessa noite de promessa feita ao Senhor dos Quartéis e só a hora morta lhe convinha vir cumpri-la. Há que respeitar a crença alheia, quando é sincera e desarmada de agressividade, e dar-lhe até caminho franco, quando meramente se confina adentro do campo espiritual. Toda a intolerância é condenável e deprimente. Contrariar o desígnio da mulher, movida pela fé religiosa de que estava penetrada, seria mesquinho, senão soez, embora os escrúpulos da consciência tivessem salvaguarda no regime interno do quartel. Que viesse e quando quisesse, pois, como de costume, só me deitaria tarde.
Já onde ia o toque de silêncio, quando, tendo-me encostado à ombreira da janela a olhar, absorto, o fronteiro largo, me prenderam a atenção dois vultos, que por ele vinham descendo: um de homem era, mas o ouro não deixava a escuridão da noite perceber de pronto o que fosse, da altura de criança; criança, porém, não devia ser, pois, ainda que menina, se lhe haviam de conhecer as pernas, e é que, a acirrar a curiosidade, a marcha de tal corpo amputado era lenta como a do caracol. Não tardou meio minuto que decifrasse aquele mistério; era o cumprimento da promessa, e agora se explicava a escolha da hora adiantada, à qual com probabilidade ninguém ou quase ninguém se encontraria. Vinha a mulher de sua casa, à Portela de Baixo, em direitura à porta do quartel, fazendo todo o trajecto a arrastar os joelhos, penosa, dolorosamente pelo chão. Intimamente indignei-me com esta prática bárbara, que só poderia agradar a um deus truculento, engendrado à margem da característica bondade do cristianismo; porém decorridos minutos, ao ver a penitente transpor o arco da entrada, curvado o busto para diante, o chale sobre a cabeça, rebuçando-a, rastejando com intercadências, que traduziam sofrimento, sofrimento – fiquei com os olhos humedecidos. Nenhuma vantagem advinha para o semelhante daquela tortura voluntariamente imposta e interrogo-me a mim próprio sobre o porquê deste rebate de comoção. Debalde, porquanto a sensibilidade escapa-se a rebuscas analíticas. Sei apenas que todos os sacrifícios são admiráveis, partam de quem partirem, seja qual for o sentimento que os determina; e que alguns, vistos, contados mesmo, dimanam de si a força de inevitavelmente nos enternecerem.»

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