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Paisanas (Canções do Meu Amado País)

APRESENTAÇÃO GERAL

O corpo da obra Paisanas (Canções do Meu Amado País) apresenta-se dividido em quatro partes temáticas:
Cidade e Termo – Viana; A Lenda do Rio Lima; Tricana; A Chinela; Enquanto é Tempo; Ou Sim…; Ó Tempora; Sobre a Areia; A Canção da Brigada do Minho
Murmúrios do Lima – Maria Luisa; Contemplação; Apartamento
De Boca para Fora – Lugar Comum; Soltos; Dia d’Anos; Concisa; Carta de Férias; Papelucho que Oiro Vale; Trocadilho; Verdade Velha; Timidez; O Laço; Ao Passar; Pontuação a Tempo; Trovas a uma Morena
Brisas do Mar – Dor de Cotovelo; O Leque de Baile; A Última Trova
Segue-se uma tradução para alemão do poema «Apartamento», sob o título «Trennung» por Willy Maass.

Fecha-se esta edição com uma secção intitulada Dos Jornais, na qual foram compilados vários comentários críticos sobre a obra, publicados em vários jornais no ano 1922.

LINHAS TEMÁTICAS

Em versos cheios de melodia que «…se lêem com agrado, pela simplicidade que deles dimana como a água cristalina de uma fonte…», Sardinha canta a graça e a gentil beleza da mulher do povo, da tricana vianesa (Tricana, A Chinela, Ó Tempora), cuja maneira típica de vestir, com o seu chaile e chinela de verniz – ilustrada na capa do livro – há muito se perdeu .

O tom irónico e leve com que retrata e critica aspectos da vida citadina, alia-se a descrições da terra e do seu povo «…fazendo em ligeiras líricas, verdadeiros quadros de mestre aguarelista…».

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Conheça o autor

"«ERNESTO SARDINHA, de seu nome completo Ernesto Firmino Trindade Sardinha, nasceu em Lisboa (freguesia de Santa Cruz do Castelo) a 5 de Maio de 1888. Após o Ensino Primário feito em Lisboa, frequentou o Liceu de Évora, vindo mais tarde (o seu pai, oficial do exército, estava sujeito a estas andanças) para o Liceu de Viana do Castelo, onde concluiu o sexto ano, tendo o sétimo sido feito no Sá de Miranda de Braga, visto ao tempo não o haver aqui. Sucessivamente fez os preparatórios militares na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, de onde ingressou na Escola Militar. Concluído aqui o curso, e por força da 1.ª Grande Guerra, integrado na Brigada do Minho seguiu para a Flandres, onde combateu como oficial.Regressado a Viana, a sua querida Viana, terra escolhida como sua por opção, aqui viveu até ao seu falecimento, em 14 de Setembro de 1950.» Em 1922, em edição da revista Lusa de Cláudio Basto e Pedro Vitorino, Ernesto Sardinha publicou as suas primeiras poesias, já divulgadas em jornais vianenses (Aurora do Lima, O Povo, Folha de Viana). Para além de tenente-coronel do exército, foi jornalista, poeta, escritor com diversos livros publicados, tendo também realizado conferências e palestras. Foi colaborador e director do jornal Aurora do Lima, cargo que desempenhava à altura da sua morte. Nota: Biografia elaborada pelo filho do autor, complementada com dados recolhidos na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira"
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Capa

Prefácio

A obra é iniciada com uma quadra dedicada à cidade:

Ó Viana, ó meu país,
Ó terrinha bem amada,
Se o Senhor voltara ao mundo,
Não qiusera outra morada!

Foram aqui incluídos alguns textos críticos que dão o seu contributo para a melhor compreensão e avaliação da obra, muito embora surjam somente no final do livro:

A Luta (Lisboa) de 10 de Outubro de 1922

«…como bom português, é aos amores que pede inspiração. E propositadamente dizemos – amores – no plural, porque o autor não suspira liricamente endeixas junto de quem lhe tivesse ferido o coração. Não se trata de paixões, mas daquele amor à moda pagã que nasce e morre entre dois amplexos.
Devemos dizer que o faz com galhardia, e muitas vezes com graça, podendo louvar-se em muitos dos seus versos uma espontaneidade e singeleza apreciáveis. O leitor reconhecerá essas qualidades na poesia (…) intitulada A Chinela (1) (…)»

Voz Republicana (Viana do Castelo) de 21 de Outubro de 1922

«Extraímos (…) das Paisanas, o livro de versos recém-editado nesta cidade, a poesia a que o seu Autor pôs aquele sugestivo título Ó Tempora (1). Ao efectuá-lo, não devemos deixar de explicar que nos influencia na escolha feita o acentuado sabor local, paisano (…) daqueles setissílabos, para nós dos de maior melodia, não obliterando as estrofes tão rítmicas da Tricana (1), essa outra composição em que o Poeta logrou merecido sucesso, a ponto de serem decoradas aquando da primitiva publicação há anos num jornal desta cidade, em que se estiliza e perpetua o tipo da interessante e sedutora filha do povo de Viana.
Nesse quadro do Ó Tempora, Ernesto Sardinha encontrou a fórmula (graças à expressão delicada, à rima, à síntese e ao amargo humorismo) para concretizar este contraste, tão vianês, entre a grácil tricaninha de outrora e a mãe de família de hoje, nem sempre vivendo com o desafogo que lhe permita conservar a linha da mocidade. E já, quando encontramos alguma destas nas ruas da cidade, e nos lembramos das galas e frescor desaparecidos – as palavras ou o comentário, que nos acode instintivamente, é o estribilho «Ó loira e esbelta Maria!…»

Voz Republicana (Viana do Castelo) de 4 de Novembro de 1922
«…abre-se o livro e… o que é que se topa?
Topa-se (…) e deixando agora tudo o mais (…) a riquíssima, a soberba maravilha – Apartamento (1) – quinze estâncias esplendentes, todas de borbolante inspiração, de eloquência nativa, sem a escorrência nova-rica de enjoalhados tropos farfalhantes; não, – tudo palavras do natural falar, aquelas palavras que, de velho instinto, já nos conhecem o caminho da garganta quando lá vão ter os soluços das grandes dores (…) No Apartamento brotam as imagens em tropel como nos prantos dos rudes; e, sendo poderosíssimas e de entalhe profundo, são todavia de velho corte e sabor tão português, tão nativamente português!
Eu vinha desvairado, enlouquecido,
Daquele golpe. Mal podia andar;
Porque o meu coração tinha morrido,
E os mortos são pesados de levar.
Mas urge transcrever mais, documentar mais, e ver-se-há se a admirável composição não revela um formidável temperamento de poeta nêsse rapaz novo, ainda de nome obscuro: (1)
(…)

Oh, decerto, decerto é preciso subir até aos cimos mais oxigenados da literatura portuguesa, ir até aos passos mais inspirados da Vida, de João de Deus, para se encontrar lirismo tão seivoso como o do Apartamenro.
Até a técnica do verso, que noutras composições do livro deixa a desejar, é aqui qasi sempre magnífica: os versos arfam, estacam amiúde, não vão olimpicamente no passo igual e sereno do Comedimento; vão humanamente e miseravelmente aos arquejos, – harmónicos com os solavancos dum coração em transes. E é de notar – pois não é? – que o poeta espontaneamente, num transparente «sem querer» – e só porque tem a alma do bardo português – acaba o breve e forta drama… – como?
Morta (ou como morta) para o enamorado, a «perdida noiva», o alto e espedaçado chorar de despedida amaina enfim. E a voz deplorante, mudada a clave, varia de tom (…) para um sussurro místico, rogando bênçãos.- É que logo ali nas estâncias finais, dulcíssimas (Sejas tu mais feliz do que ninguém! Teus filhos sejam lindos como a mãe!) começa o culto saudosista, não bem Àquela que se perdeu, mas à sua sombra, ao vulto «doce-amargo», a que o enamorado se aferra para sempre, no viver e fremir subjectivo – como é próprio da incomparável ternura portuguesa; como quando Camões, no século XVI, rezava: «Descansa lá no céu eternamente, e viva eu cá na terra sempre triste!…»; e como quando João de Deus, no século passado, suspirava: «Não sei se me voou, se ma levaram; nem saiba eu nunca…»
Creio que Apartamento é uma das mais belas poesias que se têm escrito; creio que vale, que excede, e de muito, todo o livro – e na sua admiração me demorei; e que possam soar para o poeta muitas horas em que o seu forte poder acorde todo, e entre todo em jogo, como na hora do Apartamento, posta em pé toda a vibratilidade de seus nervos de eleito, de altíssimo artista! Quem sabe? Então formaria de primores a sua obra, à sua altura, à altura a que mostrou poder subir…
Diz isto, então, as mais composições se me afiguram falhas absolutamente de mérito? Tudo é elativo… e é-se guloso; ora, aparecida uma raridade saborosa, porque se não hão-de pedir mais a quem, sendo capaz, tem o dever de no-las dar?
(…)
Ora em muitas das demais peças poéticas, posto que haja lá por vezes uma leveza rendilhada de galanteria, por vezes num tom entre irónico e meiguiceiro, fluentíssimo e escorregante, que lembra como certas trovas de Augusto Gil, o trovar do povo – a verdade é que quási sempre a alma do poeta jaz, dorme (ou parece-o), enquanto a boca vai cantando fácil, só no extremo dos lábios, sem que a voz arranque do fundo e traga de lá acentos de comoção…que nos comovam.»

FERREIRA SOARES

Diário de Notícias (Lisboa) de 20 de Novembro de 1922

«… diz-nos ele, num humorístico prefácio, que as suas estâncias lhe parecem simples e naturais como a personalidade de quem as escreveu, a paisagem onde se enamoravam os seus olhos de criança, as moças que o inspiravam e o povo a que pertence.
Não é imodesto o juízo que Ernesto Sardinha forma dos seus versos, todos dignos de apreço e muitos de excepcional louvor. O poeta é um lírico, que sente o amor com todas as suas seduções e encantos, não nos flagelando com a dscrição de dores tétricas e imaginárias e comprazendo-se até em nos fazer sorrir com composições graciosas e cheias de meigas ironia. Tem as suas afinidades com alguns dos poetas de maior renome, o que não prejudica a sua individualidade. Ao lermoa a Tricana lembra-nos que João de Deus a poderia ter escrito, como ao encantarmo-nos com Verdade Velha nos parece que estamos a ler Augusto Gil. E nestas palavras vai o maior elogio que poderámos fazer ao poeta das Paisanas. Querem a prova de que não exageramos? Ouçam a composição intitulada Lugar Comum (1)

E esta quadra com que fecha a admirável poesia Apartamento:

E se algum dia eu te fiz chorar,
Fui causa de desgosto para ti,
Seja estéril a terra que eu pisar,
Maldita seja a hora em que nasci!

É simples e é belo, não é verdade?» ELCAY.

(1) Reproduzida em Excertos

Excertos

TRICANA

a Salvato Feijó

Que me importa a mim que diga
A má língua que tu fazes
Tolarias com rapazes,
Doidices de rapariga?…

Se és a mais linda tricana,
A mais vestida de graça,
A mais galante, que passa
Pelas ruas de Viana!

Que me dá que a ti tomasse
A má língua à sua conta?!…
Se é rosada a tua face,
E alegre o teu olhar
Como a aurora que desponta!
Se é ligeiro o teu andar,
O teu porte senhoril!
Se és de tal modo gentil,
— Para que me hei de importar?

Com o punho arremangado,
A ver-se a pele mimosa;
Com o cabelo ondeado;
Tão fresca, linda, viçosa!

Lenço no ombro caído,
Deixando ver (e eu que espreito
Curioso, embevecido)
A brancura do teu peito!

A chinela mal pousando,
Esbelta, viva, ligeira,
Num andar gracioso e brando!

Ver-te, Maria, formosa,
Tão linda, tão feiticeira,
Faz a vista venturosa!

Passas por mim apressada,
Dizes-me adeus sorridente;
Voa-me a alma embalada
Pela tua voz timbrada,
Pela harmonia que sente.
E eu, num absorto sonhar,
Fico ainda a recordar
A blusa nova de chita,
A saia branca, a chinela,
A meia cor de canela,
A tua face bonita.

Se és, Maria, tal encanto,
Formosa, lépida, viva,
Se o teu olhar me cativa,
Que me dá a mim portanto,

Que me importa a mim que diga
A má língua que tu fazes
Tolarias com rapazes,
Doidices de rapariga?!…

A CHINELA

a Duarte Solano

Vi-te há pedaço de botina airosa,
E francamente não te fica bem:
A bota é própria duma dama idosa,
Não tem a graça que a chinela tem.

Conquanto fosse de esmerado talhe,
Não gostei de te ver, porque a chinela,
Leve e humilde, a uma tricana dá-lhe
Um outro encanto que é segredo dela.

A bota traz o pé fechado à chave
E encobre a base esguia da mulher…
Por isso é própria duma dama grave,
Que já não tem quem a procure ver.

Não há que valha em graça e sedução
A tua chinelinha de verniz!
O meu olhar persegue-a, como o cão
Perdigueiro no rasto da perdiz…

Porque ao andar descobres o artelho
E da perna roliça um bocadinho…
(A perna tentadora, aquele joelho!)
Ainda não os vi, mas adivinho.

Falam de ti; granjeias ruim fama;
Perguntam donde vem tanta riqueza.
Deixa a botina para um pé de dama
E usa a chinelinha vianesa;

Sem a meia; acredita: teu pé nu,
Lácteo e leve, liso e diminuto,
É digno de mostrar-se, porque tu
Possuis um pé de imagem, impoluto.

E que o não fosse? Mas descansa, é.
(Às vezes tem-se cada ideia louca:
Podias ter um calo no teu pé,
E o calo ser a marca de uma boca.)

Dizes às vezes com ar de pena
Que eu não sou fôrma do teu pé. Pudera!
A fôrma do teu pé é uma açucena,
Quando muito serei folha d’ hera;

A folha d’ hera rastejante e escrava,
Não terá dó do seu destino cru?
Pois folha d’ hera a mim que me importava,
Se o muro onde estivesse, fosses tu…

Agora que usas botas à madama,
Não tornarei a ver o teu pezinho,
Nem cismarei, com o meu peito em chama,
No que ainda não vi, mas que adivinho…

APARTAMENTO

a José Couto Viana Ferreira

Depois daquela despedida crua,
«— Tudo acabou!» (Meu Deus, que despedida!)
Fiquei pregado ali em plena rua,
A pouco e pouco me fugia a vida.

Ia tremendo quando fui falar-te,
E entrecortada me saía a fala,
Nas convulsões dum peito que se parte,
No arquejar dum coração que estala.

Mal pude articular o que sentia,
Saíam-me as palavras em arquejos,
Meu coração entrava na agonia!

Porque não viste, Amor, o meu olhar?
— Os lábios foram feitos para beijos,
Os olhos é que são para falar.

Fiquei pregado ali, em plena rua,
Como se dera um passo e avançasse,
A alma me ficasse ao pé da tua,
A minha vida presa a ti ficasse.

Ergui os olhos p’rà varanda
Na esp’rança vaga de te ver sorrir;
Mas voltaras as costas. — Vamos, anda,
Tudo acabou, é tempo de partir!

Eu vinha desvairado, enlouquecido
Daquele golpe. Mal podia andar;
Porque o meu coração tinha morrido,
E os mortos são pesados de levar.

De mim te apartas. Deixas-me sozinho;
Fico num triste desamparo agora.
Perdido o guia, vou como um ceguinho,
Aos tropeções por essa vida fora.

Sobram mulher’s. Mas como tu, ó minha
Perdida noiva, aonde encontrarei?
Posso-as lá eu amar! O amor que tinha,
Foi para ti, sem mais nenhum fiquei.

Tu és a linda, a inigualada, a rara,
A ti curvara o seu joelho um rei;
Tu o ideal não és que eu formara,
Porque de ti o ideal é que eu formei.

De mim te apartas. Um p’ra cada lado:
Vais conhecer novos amores, vais
A outro dar o teu sorriso amado,
— E a outra eu sinto que amarei jamais.

Irás ser doutro! Se casares um dia,
(Que ideia horrível! Ver-te em alheios braços!
Eu sinto o sofrimento que teria,
Se o peito me arrancassem aos pedaços.)

Se um dia te casares, (que tortura!) —
Sejas tu mais feliz do que ninguém,
Tenham os teus filhos a maior ventura,
Teus filhos sejam lindos como a mãe.

Crê que não guardo o mínimo rancor,
Em mim encontras o amigo certo:
Morrer por ti, se alguém preciso fôr,
Por ti então todo o meu sangue verto.

E se algum dia eu te fiz chorar,
Fui causa de desgosto para ti,
Seja estéril a terra que eu pisar,
Maldita seja a hora em que nasci!

LUGAR COMUM

a Henrique Couto Viana

Partiste. Quis ver-te. Ias contente,
Como se fôra viagem de noivado,
Um sorriso a brincar no rosto amado,
Dizendo adeus com o lenço a toda a gente.

Mas para mim nem um olhar dos teus!
(Ah! visses meu olhar como era triste!)
E lá partiste
Sem aos meus olhos tu dizeres adeus.

Se o pensamento meu tens a seguir-te,
Para que havias tu de despedir-te?

Ó TEMPORA

a António Lima

Oh! que saudade, Maria,
Eu tive da mocidade,
Quando, inda há pouco, te via!

Tu, a tricana galante,
Com fama em toda a cidade,
Eu, o ardente aspirante!

Como vai longe e distante
O tempo da nossa idade!

Os versos, que eu te fazia!
Aquele amor agarrado!
Que saudades produzia!
Saudades!…

Como sentia,
Um pungir cavo e magoado
Dentro do meu coração,
Só de lembrar-me, Maria,
Dos tempos que já lá vão!

E hoje tudo mudado!
O teu marido é soldado
E eu — vejam lá! — capitão!

Ó loira e esbelta Maria,
A vida tem vários trilhos;
Ergue a uns, a outros rasa:

Pensei eu, quando te via;
Espiolhavas os teus filhos
Ao portal da tua casa.

Ó loira e esbelta Maria!

VIANA

a João de Alpuim de Agorreta e Sá Coutinho

Terra tão clara e tão linda,
De arrabaldes tão formosos,
Floridos, gratos, viçosos!
— Não conheço terra igual!
Como ela não vi ainda,
Nem na há em Portugal!

Raparigas de Viana
Maravilhas não serão;
Mas de seus olhos dimana,
Como um perfume rescende
A luz excelsa, que prende
As almas em devoção!
Mas têm no corpo beleza,
Gala, donaire, viveza,
Que espertam o coração!…

Por isso é terra de amores,
E para amores fadada.
(O exemplo vem de cima,
Porque Viana é amada
Pelos dois namoradores,
Que é o Mar, e que é o Lima…)

O Mar, eterno devasso,
Ardente, voluptuoso,
Dá-lhe abraço sobre abraço,
A rebramar, amoroso…

E o claro Lima brando,
Com melindroso carinho,
É um murmúrio, falando,
Beija-a de leve e mansinho.

Pretendida assim, Viana
(E que espanta, se é mulher?)
Dos dois amores se ufana,
Beija um, outro rival,
E a um e outro quer:
Ao Mar — o amor sensual,

E ao rio do Esquecimento,
Que é o amor sentimento…

Terra de amor e de encanto,
Há de ser bendita, enquanto
Houver olhos para ver
E corações para amar,
(Que é o mesmo que dizer
Corações para chorar…)

LENDA DO RIO LIMA

a Miguel de Alpuim de Agorreta

Ouço dizer que em épocas distantes
As legiões dos Cônsules vieram
À Lusitânia norte, e transpuseram
Dum rio as mansas águas murmurantes;

Que era tal o encanto das paisagens
E tépido, aprazível o ambiente,
Tão balsâmico o ar e recendente,
— A vida tão feliz nestas paragens,

Que ao longo dessas ribas solitárias,
Orladas de verdura e salgueirais,
Aqui estabeleceram arraiais
As peregrinas tropas legionárias.

Correram as calendas de fugida;
Há muito descansavam os peões;
Os cavalos pasciam ; às legiões
Nunca chegava o dia da partida.

Porque do rio as águas murmurantes,
No sossego das noites, ao luar,
Soltavam harmonias de encantar
Jamais do Tibre ao Douro ouvidas antes.

E tinha tal poder o seu acento,
Que de Roma se foram olvidando
As legiões remissas, e chamando
Ficou-se o rio, então, do Esquecimento.

A ÚLTIMA TROVA

a José Pereira Cyrne de Castro

Postos no bico da gola,
Com que o alvo peito encobres,
Os meus olhos são dois pobres
… ao portal, pedindo esmola.

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