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Quando o Velho Fauno Sentiu o Empurrão da Morte

Fausto Bezerra Velho, professor primário e apreciador das putinhas da ladeira do Senhor do Alívio, manteve-se solteiro até à idade de 48 anos. O que leva este homem a casar com Maria do Resgate, 32 anos mais nova? E depois, por que se envolve, sucessivamente, com mais três criaditas, todas elas mal ataviadas na sua adolescência, até que um dia a morte lhe faz sentir o empurrão inevitável?

Desenrolando-se nos anos 30, quando Salazar começava a algemar a liberdade dos portugueses, esta novela é a memória de um tempo passado e dos seus equívocos.

O júri do Prémio Manuel Teixeira Gomes, ao distingui-lo, considerou Quando o Velho Fauno Sentiu o Empurrão da Morte «uma escrita delicada, quase etérea e, contudo, forte e profunda»

(In Contracapa do livro)

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Conheça o autor

"Nasci num fim de tarde vulcânico quando os Aliados punham as botas libertadoras nas praias da Normandia, e milhares deles viam um anjo alado sair-lhes do corpo e subir ao céu. Nenhum terá percebido que se tratava da própria alma. A parteira veio confirmar o milagre do nascimento, e tão engalanada como se viesse saudar o príncipe. Tinha razão eu era o príncipe. Horas depois, já com a noite posta, o meu pai pegou-me ao colo e levou-me à janela para poder contemplar o castelo que foi morada de D. Diniz, e sentir correr as águas do rio Liz. Os grilos cantavam e havia um Zéfiro benigno que chegava dos lados do Atlântico, empurrado pelas mãos de Diunisius. Ao levantar-me no ar, sob o céu de estrelas, o meu pai, que era um comerciante próspero mas dados a enigmas esotéricos, disse-me:"Eis o Universo a que pertences. Dele viste e para ele partirás". Isto marcou a minha personalidade curiosa, enciclopedista, de querer saber tudo. E marcou-me também com uma certa ingenuidade cósmica de que não me consigo libertar. Foi um parteira engalanada que me recebeu mas poderia ter sido Rousseau. Os saberes liceais nunca me interessaram e por isso fui mau aluno, com notas péssimas a Português. Mas cedo descobri o abismo da leitura com Camilo, Verne e Eurico Veríssimo. Eça era um proscrito. No burgo onde eu nasci, ele colocara um tal Amaro, padre lúbrico, uma Amélia destemperada e uma paralítica possuída pelo demónio. Naqueles tempos de salazarismo beato, os meus conterrâneos não lhe perdoavam a desfaçatez de denegrir a terrinha. Só aos sessentas anos é que comecei a escrever a sério, depois de aposentado, movido de uma insatisfação crítica que nunca me abandonou. Faço-o na terra que adoptei como minha, um burgo altiminhoto bailadeiro, atraente e dono satisfeito da maior romaria portuguesa. Portuguesa? Não. Planetária. Os meus estudos universitários em Lisboa foram marcados por um acontecimento singular. Assisti ao primeiro espectáculo da Comuna "Para Onde is?" que me deixou alucinado e devoto pelo teatro. Percebi que havia mais mundo para lá da rua em macadame em que nasci. Nos dois finais no Liceu em que chumbei, escrevi todo o texto para as récitas de finalistas e numa delas até coloquei a Nanda e a Litas (duas maternais prostitutas que nos desmamavam com muito carinho) a falar em cena. Por causa disso, fui chamado ao reitor, e eu , a tremer de medo, ouvi-lhe estas palavras: " Só não te expulso porque reconheço em ti a qualidade dos grandes escritores." Devia estar a confundir-me com o Saramago ou com o Mário Cláudio, o meu escritor de eleição. A verdade é que em toda a minha vida nunca vi ninguém que se tivesse equivocado tanto. Tenho ainda muito tempo para viver e penso deixar muitas obras escritas. Agora que me escutem, pois até aqui, por causa da minha curiosidade, só sabia escutar as vozes dos outros. Penso morrer em 2020 - é um número bonito, equilibrado - e até lá tenho muito para escrever, bem mais do que o tempo que me resta para viver. Depois regressarei, segundo o meu pai, ao lugar donde vim: algures na Via Láctea."
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972-8925-10-7

Capa

Excertos

Maria Secundina

Dias depois, o professor trouxe lá para casa a Maria Secundina. Tinha uma compleição insignificante. No rosto ossudo destacava-se um olhar manso, saturado de doçura. Os olhos eram escuros, lentos e grandes. Quando lhe dirigiam a palavra, antes de responder, ela fixava com demora arrastada o seu interlocutor, como se quisesse sugar-lhe as emoções. O professor irritava-se com aquela mansuetude que lhe parecia de atrasada mental. Quando lhe explicava as coisas via-a ficar queda e calma, como se sobre a sua cabeça tivesse caído um manto de neblina. Mas surpreendia-se quando, a insistências suas, a ouvia repetir tudo o que lhe dissera segundos antes. Mas estava longe de o satisfazer no dia-a-dia, sempre muito calada, quase taciturna. O professor suspirava e dentro de si sentia um remoinho de saudades: como a Julita não haveria de ter outras.

Mas tal como a Julita, a criança Secundina, já mulher composta e de decote acalorado, matada a fome dos tempos infantis e perdidos os fumos erráticos da infância, iria, ao fim de dois anos, desaparecer. Juraram vê-la, numa madrugada transitória de trovoadas secas, elevar-se atrás da casa do professor, volatizar-se e confundir-se com as nuvens brancas, no rosto o mesmo olhar manso e açucarado. Sem raivas. Apenas uma inamovível resignação.

Maria Terceneira

Veio a Maria Terceneira, um pouco atarracada, baixa de cu. A Terceneira, nascida numa mata densa de plantas rasteiras e bravias, filha de pai desconhecido e de uma mãe taranta e de pés tortos, era despachada e com muita conversa. Gostava de falar sobre o que quer que fosse e com quem quer que fosse, o que desagradava ao professor.

O empregadito da mercearia, um catraio imberbe, ainda sem ameaços próximos de barba, aparecia todas as segundas-feiras, com as compras da semana. Quando a má-língua da cidade desconfiada informou o professor que a Maria Terceneira mandava entrar o rapaz e que ele por lá se ficava longos momentos, este apareceu-lhes subitamente em casa, convencido que ela o trocava por sangue mais novo. Jogavam às escondidas atrás dos móveis e dos reposteiros.

Também esta desapareceu num dia pastoso e quente de Verão. Viram-na sair, de madrugada, tal como às outras duas, já a engordar na cintura, dissolver-se num campo de milho alto em que as folhas cortavam a cara como facas. Quem a seguiu com a vista, jurou que a sua pele se tingiu de verde e que os milheiros, após abrirem uma pequena vereda à sua passagem, a abraçaram. Tal como as outras nunca mais foi vista.

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