Biblioteca

Hospital

Percorrendo a “Tábua” deste livro de poemas, sai reforçada a ideia de que os textos abordam vivências de alguém que se viu na necessidade de estar num hospital… constatamos a existência de doentes provavelmente companheiros de enfermaria, desde “O Chinês”, “O Doido Senil”, “O Bom Samaritano”, O “Filósofo” e “O Colérico”… Mas um hospital também é feito de “Dor” que muitas vezes é atenuada pela presença de “As Visitas”.

Também encontramos poemas com os títulos “corpo clínico”, “Pessoal de Enfermagem e “Pessoal Auxiliar”.

“O Juízo Final” é o último poema em que é marcante uma postura crítica em tom de apelo ao Ministro de Saúde, responsável máximo pelo barracão degradado que “tem o chão aos buracos” e onde o poeta jaz internado.

Impressões

Publicado em 1980, este conjunto de 42 textos que o autor intitula como”Impressões”, divide-se em 2 ciclos.

O Ciclo das Horas– variações – e o Ciclo do Amor – variações – onde são apresentados, como os próprios termos indicam alguns registos de Impressões sentidas pelo sujeito poético ao longo do seu percurso de vida. Podemos observar o paralelismo usado entre a razão e a ilusão.

Pode-se perceber que os registos referidos resultam de uma constante atenção e observação da vida vivida ao nível dos sentidos, do que realmente ela é e significa para o sujeito poético.

Itinerário de Braga a Roma

Publicação de trinta e seis páginas, na qual é apresentada, logo após a introdução, a tradução do original latino do itinerário percorrido por D. Frei Bartolomeu dos Mártires, aquando da sua participação na última fase do Concílio de Trento, com base no Diário escrito pelo referido bispo: viagem de Braga a Trento; viagem de Trento a Roma e de Roma a Trento; e viagem de regresso a Portugal. Entremeando a tradução, surgem algumas páginas com a cópia do original latino.

Na Introdução, são relatados dados sobre a data de divulgação da realização da última fase do Concílio de Trento; a resposta positiva de Frei Bartolomeu à convocatória do Sumo Pontífice; a data de saída de Braga e a comitiva que acompanhava o prelado português; o modo como este ocupou o tempo que passou em Itália até à abertura do Concílio; data de regresso; anotações que D. Frei Bartolomeu foi registando ao longo da viagem; a importância que é atribuída ao Diário do prelado pelos seus biógrafos; o texto que António Matos Reis utiliza para a tradução do itinerário da viagem.

Todo o restante texto é, como já se salientou, a tradução do texto do itinerário seguido por D. Frei Bartolomeu dos Mártires desde que sai da sua sede episcopal, até que a ela regressa. Cada uma das três etapas de que o Diário nos dá notícia inicia-se com a designação de “Jornada”, seguida de um número, por ordem sequencial, principiando no primeiro algarismo (1) e terminando, no caso da viagem entre Braga e Roma, na Jornada quarenta e nove; no caso da viagem de Roma a Trento e de Trento a Roma, na que seria a jornada doze o autor prefere a designação de “último dia”) para prosseguir novamente com a “Jornada 1”, até à dezasseis; já na viagem de regresso a Portugal, D. Frei Bartolomeu elenca um total de sessenta e quatro jornadas. Após a atribuição de um número de ordem à jornada, segue-se a data em que tal ocorreu, por vezes com menção do dia da semana e localidades por onde passou. Em certos casos, o autor não se queda pela simples enumeração dos locais de passagem, acabando por registar mais algumas informações sobre os mesmos (distância a que se encontra de uma localidade de maior importância, terras circunvizinhas, acidentes geográficos próximos, refeição tomada) ou, como acontece noutros casos, indica monumentos, factos e personalidades ilustres associadas à localidade, bem como usos e costumes locais e outras informações de cariz religioso.

Na última página da publicação pode ver-se um mapa legendado, contendo todo o itinerário percorrido pelo arcebispo de Braga.

Janus

Dado o número de atributos que lhe eram conferidos, Janus foi considerado um dos deuses mais proeminentes do panteão romano. Era o deus das partidas e das chegadas, do dentro e do fora, do início e do fim, do passado e do futuro… Segundo a mitologia, governou no Lácio num período de grandes desenvolvimentos científicos, facto pelo qual passou também a simbolizar a mudança entre a vida primitiva e a civilização, entre o obscurantismo e a ciência. Em razão desta dualidade de facetas, os romanos representavam-no com duas faces, cada uma olhando em direcções opostas. JANUS é também o título desta ficção e o nome atribuído pelo autor ao programa de astrologia, acessível através da rede, que será o elemento desencadeador de toda a intriga. Tal como o deus romano, o programa JANUS tem duas faces. Se por um lado representa “o poder de computação dos modernos processadores informáticos” ao serviço dos interesses humanos, por outro revela-se como algo de obscuro, enigmático que só será desvendado como o decorrer da acção. Este é, aliás, o objecto central de toda a narrativa: duas personagens que procuram perigosamente descobrir o que se esconde por detrás desta tecnologia. Os temas abordados, violação de privacidade, manipulação de dados através da informática, são bem actuais e cada vez mais do interesse do homem moderno. Na verdade, embora o autor, logo nas notas iniciais, faça questão de advertir o leitor que as personagens do romance são fictícias e que qualquer semelhança que possa existir com a realidade é pura coincidência, pela rápida evolução dos meios tecnológicos e da informática, os acontecimentos relatados poderiam bem ser reais. Sem recorrer a termos demasiado técnicos, como seria de prever num romance deste tipo, o autor, através de uma linguagem muito acessível, duma estrutura narrativa excelente e de uma enredo envolvido de suspense, consegue cativar o leitor de princípio a fim.

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