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Cancioneiro Temático da Ribeira Lima

Este cancioneiro é composto por um texto de apresentação, cujo título é “Este Livro…”, o qual salienta a importância da figura de Gabriel Gonçalves na recolha do “viver antigo”. Segue-se um prefácio subdividido em onze partes. A primeira das quais remete, como o próprio título indica, para as origens deste cancioneiro: a “recolha dos cantares, romances, contos e costumes regionais” junto de elementos do Rancho Regional de Vilar Murteda e também junto de seus vizinhos e familiares.

A segunda parte deste Prefácio refere o critério de organização do cancioneiro: é composto por duas partes – alfabética e temática. A terceira parte salienta que o cancioneiro é um “verdadeiro código moral e um autêntico repositório da sabedoria popular”. Estas cantigas (4ª parte) têm uma origem popular e anónima, havendo outras, porém, de origem erudita, mas, devido ao gosto e jeito populares, foram popularizadas. A quinta subdivisão refere as variantes das quadras. Estas, embora traduzindo a mesma ideia, podem apresentar variantes resultantes de adaptações regionais ou mesmo de lapsos de memória, devido à transmissão via oral.

No que se refere à localização geográfica das cantigas, estas situam-se na Ribeira Lima, com destaque para Lanheses (6ªparte). A conservação oral verifica-se nas zonas rurais, por serem mais conservadoras das suas tradições (7ª parte). Quanto à sua difusão contribuíram os afazeres rurais, como as fiadas, as sachadas e as esfolhadas. A nível regional contribuíram as grandes romarias (São João de Arga, Feiras Novas) e as feiras (8ª parte).

Relativamente à estrutura das quadras, estas assentam no gosto popular, sendo constituídas por dois dísticos (9ª parte). A forma e a pronúncia das palavras, características desta região, não estão registadas neste cancioneiro (10ª parte).

No que se refere ao tratamento amoroso (11ª parte), o autor exemplifica oito formas de tratamento amoroso: exprimindo ternura e beleza corpórea; comparando com as flores, com os frutos, com os animais, com os gestos e com as jóias e o tratamento vulgar.

A primeira parte deste cancioneiro corresponde à parte temática, estando esta dividida em quarenta e dois capítulos e subdivididos, alguns deles, em subtemas. Cada tema é documentado com a apresentação de algumas quadras mais representativas, sendo as restantes, que se lhe referem, indicadas pelo seu número correspondente da parte alfabética.

O tema do Amor é um dos mais produtivos, apresentando algumas variantes relacionadas com os subtemas “Amar e ser amado”; “Não há amor como o primeiro”; “O amor é ternura”; “O amor é sofrimento”; “O amor vive da correspondência” e “O amor foge”.

“O coração (o peito, a alma)”, como símbolo do amor também é bastante representativo. Neste caso, não há comentário a anteceder as quadras, mas sim uma nota de rodapé que aponta para o coração como ilustração de cartas de amor, de lencinhos, de aventais, algibeiras, das prendas de oiro, de louças, de doçarias, de rocas, etc.

” O amor é sofrimento: separação” subdividido em ausência, emigração, adeus e saudade. Saliente-se o facto da gradação existente desde a ausência que provoca a saudade.

Por outro lado, o amor também apresenta espinhos: “O amor tem espinhos: paixão”. A paixão implica um sentimento profundo denominado pelo mesmo nome. À paixão segue-se a dúvida, a incerteza de ser amado e, daí, os amores não correspondidos que conduzem à pena e à dor, na qual está subjacente o sentimento de tristeza.

Por outro lado, o amor apresenta a outra face: é totalitário, possessivo. Relacionam-se com este tipo de amor o ciúme; a inveja, desforço e imprecação; o recato, a intimidade e a discreção; e, finalmente, o facto de o amor vencer tudo. Apesar do seu totalitarismo, o amor pode desvanecer devido à fraqueza dos homens. O povo classifica-o de amor eterno, amor verdadeiro e firme e amor falso, desleal. Esta é a temática que ocupa o VI capítulo, intitulado “Espécies de amor”.

Além do amor, surge-nos também o “Namoro”. Apresenta o “Namoro” propriamente dito diferenciado do “Galantear”. O “Namoro” implica confissão e promessa amorosas. Também surge a súplica amorosa, a afirmação amorosa e a jura amorosa. Por vezes, pode surgir o amuo e o martirizar, cuja finalidade é experimentar o namorado/a. Em tempos idos, o namoro associava-se aos “Domingos e Dias Santos”, pois podiam namorar e trocar “Prendas de amor”.

Contudo, havia a oposição dos pais ao namoro, sobretudo das filhas, pela sua falta no trabalho e pelo facto de serem enganadas. O lenço da algibeira é outro dos subtemas do “Namoro”, uma vez que fazia parte da indumentária da rapariga. Aquele era colocado na algibeira, podendo ser roubado, voltado a colocar, dobrá-lo de diferentes maneiras. “As Janelas” eram o local de recato das namoradas, bem à maneira garrettiana. Este capítulo termina com o subtema das “Cartas de amor”, muito utilizadas até por analfabetos. Denote-se que eram ilustradas com símbolos amorosos, ao gosto da literatura de cordel.

O “Amor sensual” manifesta-se sob a forma de “Beijo” e “Abraço”. Também pode manifestar-se como “Poliamorosismo” (procedimento que pode ser de carácter presunçoso, denotando-se vaidade pessoal e/ou passatempo, como pode ser de carácter malicioso com fins de sensualidade. O “Poliamorosismo” pode degenerar em desapego, desamor, aborrecimento. O “Amor sensual” também se conota com a “Sedução” – acto de enganar com promessas amorosas. A “Volúpia” faz com que a mocidade prometa tudo para alcançar os seus fins. Este tipo de amor também se associa à infidelidade e à ingratidão, à súplica contra o abandono, à difamação e pragas, à resignação forçada.

A última parte deste capítulo ocupa-se da condição da mulher (“O Machismo”), que é como a consequência do amor sensual, ou seja, a difamação, a maternidade ilegítima e desapego sem consequências do amor sensual.

O tema do amor ainda ocupa mais dois capítulos – “Amor sensato” (caracterizado pelo autodomínio, confiança, honra, dignidade e alegria) e o “Amor familiar”, relacionado com vários graus de parentesco.

Depois da diversidade amorosa, sendo a temática mais extensa, surgem os “Estados civis”, pela sua ordem natural: “Solteiros”, “Casados” e “Viúvos”.

Há lugar ainda para as “Trovas desprimorosas”, subdividindo-se em “Remoques”, “Murmurar, Difamar”, “Desprezo, Desdém”, “Ironia”, “Sarcasmo, Zombaria, Sátira, Chalaça, Escárnio” e “Malícia, Erotismo, Pornografia”.

Segue-se a temática”Profissionais: vida e trabalho” que, por sua vez, está dividida em “Trabalho” e “Profissões”. Esta subdivisão abrange diversas profissões, entre as quais: o amo, o alfaiate, o barbeiro, a costureira, o pescador, a tecedeira, o/a criado(a).

Como o povo da Ribeira Lima era profundamente religioso, esta faceta também se revela neste cancioneiro – “Religiosidade”. Por seu turno, esta está subdividida em “Entidades Divinas”, “Virgem Maria”, “Santos e santas”, “Espíritos”, “Ministros Sagrados”, “Crenças” e “Diversos”.

A “Antroponímia” também faz parte deste Cancioneiro. O número de nomes masculinos soma oito e sete para os femininos, sendo apenas três os masculinos – António, Manuel e José – e um feminino – Maria -, os mais produtivos.

A “Toponímia” também é extensa, apresentando uma vasta lista de topónimos diversificados, desde locais referentes ao distrito de Viana do Castelo até locais mais longínquos, ora nacionais (Porto, Lisboa, Coimbra) ora internacionais (Guiné, Brasil).

Seguidamente, o autor remete para a “Beleza corpórea”, quer masculina quer feminina: os irresistíveis olhos, os cabelos ondeados e soltos, o rosto, a sedução dum sorriso, os braços e as pernas, o peito inebriante, o bigode e as sobrancelhas, o pescoço, o nariz, a beleza feminina e a beleza moral.

A “Flora” também faz parte do imaginário do povo. Neste Cancioneiro, surge subdividida em “Plantas” e “Frutos”. No que respeita às plantas, surgem o pinheiro, o loureiro e a oliveira, estando associados às suas finalidades. Também estão presentes as flores, sendo as mais cantadas a rosa e o cravo, símbolos do moço e da moça, respectivamente. Quanto aos frutos, as quadras a eles referentes estão colocadas por ordem alfabética, com destaque para o limão e para a azeitona.

Os animais são importantes para o homem, ora pelo trabalho ora pelo alimento que lhe fornece. Também deleitam o homem, como é o caso das borboletas e de algumas aves.

O povo aproveita-se dos encantos do “Firmamento” para compor as suas cantigas. Neste sentido, temos referência ao céu, às diversas estrelas, à lua e ao luar, à nuvem, ao sol e à terra.

Passa-se para os “Acidentes geográficos”, referindo montanhas, colinas, rios, praias, todos eles servindo a imaginação do povo. As fontes, o jardim, o mar, os rios e as serras são os mais cantados. Os outros elementos são diversificados, destacando-se o areal, os campos, os montes, a água e o quintal.

O “Rio Lima” constitui tema de um capítulo. O “saudoso, brando e claro Lima” é o “verdadeiro sangue e alma da Ribeira”.

Depois do Lima é a vez das “Cores” mostrarem a sua presença neste cancioneiro, destacando-se as cores dos olhos e das flores. Salientam-se o amarelo, azul, branco, castanho, coradinho, loiro, moreno, trigueiro, vermelho, verde, rosa.

A “Presunção”, o “Destino (fatalismo)” e a “Solidão” são temas menos produtivos, todavia também fazem parte deste cancioneiro. A presunção é um vício que tem por base a vaidade, a riqueza, a prosápia e o narcisismo. Do fado, queixa-se o povo, quando a vida lhe corre mal.

A “Vida militar”, ou seja, o serviço militar nunca foi bem aceite pelo povo, sendo cumprido por obrigatoriedade. Por outro lado, “O Brasil e o mar” era mais apetecido. O Brasil era o “país da riqueza, de ouro, de felicidade, da árvore das patacas”, para onde o noivo ou marido partia à conquista de melhor vida. Elas, as esposas e noivas, ficavam do lado de cá, do outro lado do mar, à espera do seu regresso.

Outra temática subjacente a este cancioneiro é o “Vestuário e adornos”. O vestuário resume-se ao usual: carapuça, casaco, lenço da cabeça, saia, manto, corpete, calças, principalmente. No que respeita aos adornos, estes também são os mais banais: aliança, anel, brincos, chapéu, boné.

O autor também dedica um tema aos “Afazeres rurais”, salientando-se as actividades rurais características desta região, tais como a sacha, a rega , a esfolhada, a lavra, a vindima, entre outras.

O capítulo intitulado “Coisas diversas” identifica diversos objectos que não foram referidos anteriormente em nenhum dos outros capítulos – alfinete, bombo, cama, pandeiro, viola, linho, machado, concertina, meada, roca, casa…

As “Cantigas”, como tema principal, surgem associadas às cantigas ao desafio, às cantigas de embalar, às cantigas das Janeiras e anfiguris. Desta tipologia, as cantigas de embalar e as Janeiras são as menos produtivas e menos extensas.

Outro tema também pouco marcante é o “Analfabetismo”. Seguem-se as “Quadras sentenciosas”, “A riqueza e a pobreza”. Nesta temática está subjacente a dignidade e a justiça sociais.

Posteriormente, dá-se lugar à temática “Os Velhos” que, segundo a tradição, eram levados para o monte e abandonados. Saliente-se que esta temática tem diferentes vertentes: o desprezo amoroso da mulher pelos velhos; o reconhecimento, por parte destes, da sua situação; o desejo das velhas quererem casar; a vida miserável e de imundice a que os velhos estão votados; o amparo dos cônjuges e o desamor pelos velhos.

A temática menos representativa prende-se com o “Adultério”, seguindo-se outra mais extensa. Trata-se da temática de “A Vida e a morte” que se encontra subdividida nesta dualidade. A vida é considerada breve e pequena, desinteressante, pois aspira-se pelo Além. Quanto à morte, esta é a fatalidade que provoca eterna memória pelos entes queridos.

Esta primeira parte termina com a referência a um último capítulo – “Diversos” – que refere por quem se não deve enamorar, o amor platónico, os sonhos, a mudança, o vinho e o alcoolismo.

A segunda parte deste cancioneiro remete-nos para as quadras, já referidas anteriormente, mas agrupadas por ordem alfabética.

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Coordenação/Organização

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ISBN

972-588-045-5

Prefácio

1— UM POUCO DE HISTÓRIA

A partir dos últimos anos da década de vinte, fomos convidados para dirigir o Rancho Regional de Vilar de Murteda (terra da nossa naturalidade) bern como o de Meixedo.

Isto criou em nós o interesse pela recolha dos cantares, romances, contos e cos­tumes regionais, recorrendo não só aos elementos desses Ranchos, mas também aos seus familiares e vizinhos. Em Vilar, foi grande informadora a velha Emília Correia, já falecida há muito. Era inesgotável. Só foi pena que não tivesse sido aproveitada con­venientemente, por falta de tempo da nossa parte. Manuel Luís Rocha, já faLecido, foi também um abundante informador.

Em 1933, fomos colocados como professor em Lanheses. Fundou-se a Casa do Povo e nela se criou o Grupo Cónico (cujos espectáculos ainda hoje são Lembrados com saudade) e o Rancho Regional de Lanheses que dirigimos durante mais de vinte anos.

Na Casa do Povo, faziam-se serões, qu3r para ensaio dos ditos Grupo Cénico e Rancho Regional quer para cultura e recreio. Aproveitou-se então a oportunidade para abundante recolha da Tradição.

Aí por 1940, já tínhamos recolhido mais de um milhar de quadras populares, e, achando-as cheias de beleza e sabedoria, resolvemos agrupá-las por temas, segundo o nosso critério, verdadeiramente incipiente, pois nunca tínhamos visto qualquer cancio­neiro, que nos servisse de guia.

Um dia, mostrámos esse nosso «ensaio» ao amigo José Rosa de Araújo, que o achou muito engraçado e o levou, para ler. Certamente que ainda por lá o deverá ter, se o não perdeu. Nós ficámos com o rascunho.

Porém, na mesma altura, aquele nosso amigo informou-nos de que já havia um Cancioneiro de Viana, recolhido pelo Tenente Afonso do Paço. Imediatamente procurá­mos adquiri-lo, o que conseguimos, não sem alguma dificuldade.

É claro que continuámos interessadamente com a recolha de quadras e de toda a tradição popular. Os próprios alunos da 4.ª classe da escola foram grandes colecto­res, através de suas mães, avós, vizinhos, etc., orientados por nós. José dos Santos Caldas (Velho) e Manuel Gonçalves Franco (Manuel Carvalho) foram grandes informa­dores, além de pessoas amigas de Fontão, Ponte de Lima e Viana. Juntámos, assim, maços e maços de papel.

Um dia, já de posse do dito «Cancioneiro de Viana», resolvemos confrontar as quadras por nós recolhidas (cerca de 2.500) com as do dito «Cancioneiro» (1.500) e verificámos:

1) Que uma boa parte delas já dele constava (o que nele anotámos);

2) Que havia outra parte que também dele constava, mas com pequenas variantes (que anotámos);

3) Que muitas das nossas quadras (cerca de mil) não constavam dele. Inscre­vemo-las nele, a lápis, à margem das que já lá estavam, por ordem alfabética. Houve páginas em que tivemos de inscrever mais de uma dúzia delas. (Conservamos zelosa­mente este trabalho);

4) Que, finalmente, do «Cancioneiro de Viana» constavam também algumas quadras que não constavam da nossa recolha. Lemo-las aos nossos informadores, que reconheceram algumas delas, pelo que as aproveitámos. As restantes (cerca de 90, que não foram reconhecidas) não as aproveitámos.

Ao fazer este trabalho de reconhecimento, os nossos informadores evocaram, por associação de ideias, numerosas outras quadras, aumentando assim a nossa colheita.

Em 1953, viemos para o Porto, como professor de Didáctica da Escola do Magis­tério. Dedicámo-nos então à escrita de obras pedagógicas o que, juntamente com as funções docentes, nos absorvia todo o tempo.

Todo o material de recolha htstórico-etnográ fica foi por nós arrumado, ficando, durante cerca de trinta anos, arquivado (aos ratos e à traça) na casa de Lanheses e, mais tarde, na do Porto.

Só depois cio nosso limite de idade, com a aposentação, resolvemos começar a remexer esse material bafiento e rendilhado pela traça. Mas com certa dificuldade, pois a falta de vista já não nos permite certas tarefas, como a consulta de documentos anti­gos com letra esmaecida. Também, com a nossa actual residência no Porto, perdemos a possibilidade de rectificar, confirmar e ampliar esse material, in loco, pelo que, nesta parte, o trabalho não se pode considerar exaustivo, do que pedimos desculpa.

2— CRITÉRIO SEGUIDO NA ORGANIZAÇÃO DO CANCIONEIRO

Porque começamos os nossos trabalhos pela parte histórica (monografia de Lanheses e Vilar de Murteda), só agora (1989) chegou a vez a este «Cancioneiro da Ribeira Lima».

Com põe-se ele de duas partes: a alfabética e a temática.

O critério que temos seguido na parte temática é ainda o mesmo que utilizámos em 1940, pois não encontrámos (o que não quer dizer que não exista) qualquer outro cancioneiro nos moldes deste por onde nos pudéssemos orientar.

As quadras foram classificadas em 42 capítulos, alguns subdivididos em temas, num total de 464 temas. Cada tema é documentado com a apresentação de algumas quadras, das mais significativas, sendo as restantes, que se lhe referem, indicadas pelo seu número no cancioneiro alfabético.

A maioria dos temas é ainda precedida de um pequeno comentário nosso. A parte temática é, pois, uma bela antologia, que se lê com bastante agrado.

3— CÓDIGO DA VIDA E REPOSITÓRIO DA SABEDORIA POPULAR

Como se poderá ver, até pelo índice temático, o cancioneiro é um verdadeiro código moral e um autêntico repositório da sabedoria popular. Tudo nele foi registado: desde a família à terra natal, desde a religião ao trabalho, desde os dotes corpóreos à magnificência das flores, desde os acidentes geográficos ao firmamento, desde a vida militar à emigração, ao analfabetismo, ao sarcasmo, à solidão…, à vida, à morte.

São, porém, as cantigas sentimentais sobre o amor as mais abundantes: senti­mentos doce-amargos da paixão, da esperança, da doação, da dúvida, do ciúme, do desamor, da ingratidão, da dor, da pena, da tristeza, da súplica — bem como outros mais positivos, de confiança, personalidade, dignidade, etc. Não é esquecido também o amor sensual, o poliamorosismo, a sedução, a volúpia, com as suas consequências (desonra, difamação, condição da mulher).

Ora, como diz o Dr. Levi Guerra (Voz Portucalense de 16-06-88) «as tradições, na vida de um povo, têm enorme interesse e merecem análise». Todos os povos têm a sua tradição, que se projecta em comportamentos. É como o projectar, no hoje, do ser de ontem duma nação. É sinal de valores que moldaram a cultura e os hábitos de um povo. Encerra ensinamentos e pauta hábitos. Está muito arreigada na vida das pessoas e das instituições. É por isso que suprimi-la ou alterá-la se acompanha de muitas dificuldades».

Efectivamente, assim era. Mas, actualmente, os meios de comunicação social, sobretudo a televisão, com alguns programas indecorosos, arrastam, principalmente a juventude, para situações de degradação, geradoras de desgraça, de prostituição, de crime.

Por isso este cancioneiro, especialmente no aspecto – sentimental-amoroso, já pouco mais é do que um repositório do Passado, com pouca projecção no Presente.

4— ORIGEM DAS CANTIGAS POPULARES

A maior parte delas teve (e tem, pois estão sempre a ser criadas e modificadas) uma origem popular, anónima.

Os cantadores ao desafio, embora servindo-se, em parte, de quadras conhecidas, têm necessidade de improvisar outras, que depois ficam fazendo parte do repositório popular.

Algumas, porém, tiveram uma origem erudita, mas, dada a beleza do seu con­teúdo, o seu gosto e jeito populares, o povo apossou-se delas, por vezes adaptando-as, limando-as, alterando-as. Deu-se a sua popularização.

5— VARIANTES DE QUADRAS

Uma quadra, embora traduzindo sensivelmente a mesma ideia, pode apresentar variantes, mais ou menos próximas, resultantes de lapso de memória ou de adaptação a casos regionais, divergindo, portanto, conforme a localidade, o cantador, etc. Quer dizer, essas variantes resultam do facto da poesia popular ser conservada de memória e transmitida por via oral, sem fixidez. Observemos as seguintes:

775 (1) 88A

Eu já amei e fui amada, A folhinha do salgueiro

Nunca o amar me custou: É a primeira novidade.

Quem diz que o amar que custa Quem madruga não alcança,

É certo que nunca amou. Que fará quem se ergue tarde.

2007 621

Quem diz que o amar que enfada É a folha do salgueiro

É certo que nunca amou! A primeira novidade.

Pois eu amo e sou amada, Quem madruga não alcança,

Nunca o amar me enfadou. Que fará quem se ergue tarde.

Entre a 775 e a 2007, a diferença consiste pouco mais do que na troca da ordem dos dois dísticos; entre as 88A e 621, a diferença está, quase só, na diferente ordem de colocação dos elementos da oração.

Deveriam registar-se as duas variantes?

Caso negativo, qual a preferida?

Nós optamos pelo registo de ambas: 1.0, porque permite a sua consulta no can­cioneiro alfabético, mesmo a quem conheça apenas uma das variantes; e 2º, porque permite o estudo da maneira como o povo as maleabiliza.

Há também versos e até dísticos que servem de início a várias quadras. Ver, por ex., no cancioneiro alfabético as n.0’ 565/66/67 e 483/4/5/6/7.

6— LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA DAS CANTIGAS

Os informadores de que nos servimos eram todos da Ribeira Lima, com seu foco principal em Lanheses. Não eram, porém, todos analfabetos, nem idosos, como seria nosso desejo.

Apesar da recomendação de que apenas queríamos recolher literatura popular e tradicional desta região, é possível que um ou outro, desconhecendo a sua origem, apresentasse material para aqui trazido, não por ele, mas por outras pessoas, durante as suas migrações.

Aliás, é fácil constatar, pela consulta de cancioneiros de diferentes regiões, que muitas quadras e romances tradicionais são comuns a todas elas.

Chegou-nos à mão um cancioneiro do Algarve do princípio deste século, e, ape­sar da distância no tempo e no espaço, encontrámos nele registados romances e qua­dras iguais aos que aqui recolhemos, apenas com pequenas variantes, corruptelas e omissões, provenientes da sua transmissão de memória e por via oral, pois o assunto é o mesmo

Quer dizer algumas quadras populares não tem hoje uma localização regional determinada mas são de âmbito nacional.

Quanto a genuinidade das que constam deste cancioneiro o que podemos garan­tir e que foram recolhidas nesta região e de residentes

7—SUA CONSERVAÇÃO ORAL

Verificou-se principalmente nos meios rurais, por serem mais fechados portanto mais conservadores das suas tradições. Hoje, porém, com a morte dos informadores e com a penetração dos meios audiovisuais, essa tradição vai-se esfumando.

8—DIFUSÃO DAS CANTIGAS

Para a difusão e dispersão das cantigas a nível local, muito contribuíram os afazeres rurais, realizados em grupo (serões, fiadas, espadeladas, esfolhadas, malha­das, sachadas, etc.) que eram também as suas grandes escolas.

A nível regional, temos as grandes romarias (Senhora da Peneda, S. João de Arga, Senhor da Saúde, Feiras Novas de Viana e de Ponte de Lima, etc.), as festas paro­quiais, bem como as feiras periódicas (Viana, Lanheses, Ponte de Lima, Arcos, etc.), para onde o povo se dirigia a pé, cantando e dançando, quer no percurso, quer nos pró­prios arraiais.

9— ESTRUTURA DAS QUADRAS

Uma quadra popular é em geral constituída por dois duetos ou dísticos, de dois versos cada, entre os quais se faz uma pequena pausa. Cada dístico é como que um termo da quadra, na qual, em regra, se faz uma comparação (Vd. 86) ou uma antítese (Vd. 2106):

86 2016

A folha da oliveira Rua abaixo, rua acima,

Botada ao lume estala: Todo o mundo me quer bem:

Assim é meu coração Só a mãe do meu amor

Quando contigo não fala. Não sei que raiva me tem.

Há, porém, quadras em que não existe relação lógica entre o 1º e o 2.° dístico. Neste caso, o 1º dístico refere-se, em regra, ao ambiente geral, e o 2.° é que contém o tema particular:

88 287

A folha do castanheiro A salsa subiu ao alto,

É recortada na ponta. A hortelã ao telhado,

Quem eu quero não me quer, Minha bela rapariga,

Quem me quer não me faz conta. Só tu és do meu agrado.

Além da troca do v pelo b, que continua em regra a manter-se, existem outras deturpações na pronúncia das palavras, bem como algumas formas arcaicas, que per­sistem, sobretudo em pessoas idosas, mas que nas novas vão desaparecendo, mercê da influência da escola, da leitura, da radiotelevisão, etc.

Nós temos um pequeno glossário dessas formas regionais. Porém, neste cancio­neiro não as registamos.

11— TRATAMENTO AMOROSO

As formas populares mas usadas são: «amor», «meu amor(zinho), «meu rico amor(zinho)

Neste cancioneiro há 115 quadras começadas por «o meu amor», mais 18 come­çadas por «amor(zinho)». Há ainda centenas de outras em que entra a palavra «amor», sem ser inicial.

Mas, além daquelas, o povo usa também muitas outras formas de tratamento amoroso de rara beleza:

1 — EXPRIMINDO TERNURA

— minha amada;

— amor da minha alma (1363); (2)

— meu (querido) bem (41, 54, 83);

— raminho de bem-querer;

— chave do meu coração (236);

— fechadura do meu peito (236);

— oratório do meu peito (1057); etc.

2— EXPRIMINDO BELEZA CORPÓREA:

— cara de neve;

— (minha) cara linda (967);

— cara cheia de sinais (1073);

— meu rosto encantador (203);

— cabelinho aos anéis (1090);

— cabelo de ouro (1002);

— cabelos louros (1124);

— (meu) corpo lindo (226); etc.

3— COMPARANDO COM AS FLORES:

— minha flor;

— meu (lindo) botão;

— linda rosa (114);

— lindo (pé de) cravo (114, 230);

— boca de cravo (1465);

— lírio santo (1145);

— fresco lírio plantado à beira-mar (1075);,

— alto lírio roxo (1358);

— manjericão da janela (1041);

— manjericão redondinho (1043);

— alecrim, rei das flores (132);

— salsa da minha varanda (224);

— raminho de salsa crua;

— linda açucena mimosa (1021);

— raminho de erva cidreira (1068);

— goivo roxo (1673);

— ramo (inho) de oliveira (1735);

— pinheiro verde (1060);

— meu lindo ramalhete (114, 491);

— jardim da minha varanda (230);

— loureiro, lindo loureiro (1030); etc.

4— COMPARANDO COM FRUTOS:

— minha cereja bical (1164);

— meu limão (entrecolhido) (1164);

— minha maçã vermelhinha (1170);

— minha maçã camoesa (1166);

— minha amora madurinha (1161/9);

— cara de limão maduro (353);

5— COMPARANDO COM ANIMAIS:

— coração de pombinha (1405);

— pombinha branca (1694/5) ;

— pombo rolador, etc.

6— COMPARANDO COM ASTROS:

— minha estrela (1743);

— adorada das estrelas (81);

— meu sol (83);

— minha luz (83); etc.

7—COMPARANDO COM AS JÓIAS:

— minha prenda (2451);

— caixinha dos meus segredos (224/30);

— vidrinho de cheiro (1050);

— anel de sete pedrinhas (213/4);

— ramo de ouro (234);

— salvinha de prata (964); etc.

8—TRATAMENTO VULGAR:

— moço;

— rapaz;

— menino;

— moça;

— mocinha;

— rapariga (há 11 começadas);

— menina (há, 39 quadras assim começa­das. Vd. «cancioneiro alfabético»).

(1) Este é o n.° de ordem da quadra no Cancioneiro alfabético.

(2) Estes n.os (Vd. «Cancioneiro aIfabético») correspondem a uma das muitas quadras em que foi usado o tratamento referido.

Excertos

1

A água do rio Lima

Corre que desaparece.

Nem a água mata a sede,

Nem o meu amor me esquece.

37

A carta que me escreveste

Inda cá não me chegou,

Mas, se me quiseres falar,

Fala, que eu inda aqui estou.

119

Ainda que meu pai me mate,

Minha mãe me tire o fel,

Minha palavra está dada,

Não falto ao Manuel.

675

Esta rua é comprida,

É comprida, mas não tem fim;

no meio dela se cria

Uma rosa para mim.

1171

Minha maçã vermelhinha

Picada do rouxinol:

Se não fosses picadinha,

Eras linda como o sol.

1343

Nunca vi carvalho torto

Dar madeira bem direita;

Nunca vi homem casado

Trazer a barba bem feita.

1826

Os teus olhos negros, negros,

Os teus olhos negros são;

Os teus olhos, minha prenda,

São a minha perdição.

2417

Uma velha muito velha,

Mais velha que o meu chapéu,

Falaram-lhe em casamento,

Ergueu as mãos para o Céu.

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