Viana do Castelo

Em Verdade Vos Digo

Em Verdade Vos Digo inicia-se com um texto introdutório, num tom irónico e, como tal, provocador, referindo-se a Maria Madalena, escolhida “para servir de presencial testemunha da ressurreição do seu filho, Yashua de Nazaré…” Por quê uma mulher? Eis a pergunta que o atento leitor poderá começar por lançar!

Segue-se outro texto, a modo de dedicatória, não menos enigmático, mas assertivo, referindo-se a Bartimeu, o cego de Jericó.

O corpo do romance é composto por duzentas e oitenta e uma páginas, aconchegadas em trinta e um deliciosos e cativantes capítulos que nos conduzem por trilhos traçados entre uma “realidade histórico-bíblica” e a realidade ficcional (entre a História – o sagrado ou bíblico – e as estórias). É esta teia que, constantemente, se cruza e intercruza, que nos estonteia e nos fascina, que nos atropela e interpela e surpreende em cada página.

“No céu nem uma nuvem…só uma ave descreve uma lenta órbita…” Que ave misteriosa é esta que nos perturba enquanto leitores e às próprias personagens e que angustiará a vida de Heródes Antipas, tornando as suas noites gélidas e trespassadas por uma fragilidade surpreendente, após ter mandado cortar a cabeça a João Baptista, a pedido de Salomé. Um grupo de “doutores” parte em busca do original caminho para Emaús. Eis quando, inexplicavelmente, somem, na acepção da palavra” dois dos doutos “doutores”, ambos invadidos por um mesmo sonho que só mais tarde ousam comungar. Está gerada a confusão e a chama que alimentará todo o romance. Duas personagens são sucadas por uma espécie de “máquina do tempo” Há uma fusão de espaços e tempos e há uma série de quadros bíblicos, em junção com o fantástico imaginário, que afloram junto dos olhos do leitor, são as visagens por Jerusalém e pelos Lugares Santos, numa analepse de 2000 mil anos: João Baptista, o homem do deserto; o baptizado daquele a quem João Baptista diz: “- Senhor, sou eu quem devia ir até ti, e és tu que vens até mim?!…”; a “pesca” dos discípulos; as Bodas de Canaã; o episódio do Templo por Yeshua, aquando da expulsão dos vendedores; o encontro com Nicodemos; o episódio do poço de Jacob, o episódio do funcionário real de Canaã, prisão de João, o episódio da sinagoga, o “milagre” da expulsão de espíritos e da cura de paralíticos e cegos… Os nossos olhos passeiam outros tantos santos quadros… Yeshua está prestes a cometer uma grande blasfémia… os escribas e fariseus estão atentos… os “guardiões do Templo”… O cerco aperta-se:”- Judas, Judas, em verdade te digo que há muitas maneiras de imolar uma vítima e tu me entregas com um beijo porque, também, chegou a consumação da tua hora.”… Consoma-se o fim de Yeshua no madeiro… Surge a ressurreição… a morte dá lugar à vida. O Filho do Homem vence a morte, dando um novo rumo ao destino do ser humano. “… rodopia um vórtice de luz, de sombra… sabe que chegou , só não sabe onde chegou, a única certeza é que Yeshua lhe fez companhia na jornada de Jerusalém a Emaús e, também, o esperará no fim do caminho, quando o seu caminho acabar.” Desvanece-se a analepse de 2000 anos, tudo volta ao presente: “No céu nem uma nuvem, é uma superfície lisa, impenetrável, só uma ave descreve uma lenta órbita… Os dois “doutores” que desapareceram misteriosamente regressaram…

Eis um livro fascinante que nos embala em analepses e prolepses, personificações, comparações, adjectivações, aliterações, metáforas, hipálages…

Não é um “Evangelho Segundo Jesus Cristo” a maneira Saramagueana, não é um Nobel da Literatura… mas é, com certeza, um bom escritor alto-minhoto.

Emigração e Alfabetização – O Alto-Minho e a Miragem do Brasil

A obra, resultante a dissertação de mestrado apresentada pelo autor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, compõe-se de três partes:
– Primeira Parte: Contexto político, económico e social;
– Segunda Parte: Alfabetização e quadros familiares;
– Terceira parte: Percursos e dinâmicas.

O estudo é, inegavelmente, um contributo importantíssimo para o conhecimento da emigração alto-minhota no século XIX, com base num estudo exaustivo dos elementos constantes dos passaportes emitidos pelos Governo Civil de Viana do Castelo, entre 1835 e 1860.
Assim, ao longo das mais de duzentas páginas que formam a obra, Henrique Rodrigues aponta leis sobre emigração de 1760 a 1863, com incidência na acção do Marquês de Pombal, nas transformações decorrentes das invasões francesas, no período de luta entre absolutistas e liberais, na posição dos jovens face aovserviço militar obrigatório. Aborda também os reflexos que as crises políticas e económicas tiveram na população do Alto Minho – a emigração -, para se deter, no terceiro capítulo, na análise da distribuição por grupos etários e por períodos, da emigração para o Brasil, bem como na origem geográfica, sócio-profissional e cultural daqueles que emigravam.
Na segunda parte, refere, como o título indica, os índices de alfabetização dos emigrantes que do Alto Minho se desloicavam para o Brasil e os seus quadros familiares (relações de parentesco entre os emigrantes e aqueles que pertenciam a quadros familiares precários – expostos, órfãos e filhos ilegítimos).
A última parte é preenchida totalmente com o tratamento de dois temas: objectivos e destino dos emigrantes e a dinâmica dos abonadores no universo da emigração. Se no primeiro capítulo são referenciadas as áreas de destino dos emigrantes, actividades profissionais que exerciam, sexo, estado civil e municípios de origem, no segundo, o autor centra-se no papel dos abonadores e suas áreas de influência, nos capitães e proprietários de barcos e na dinâmica familiar de apoio à emigração.
Cerca de três dezenas de figuras (gráficos) encontram-se inseridas ao longo dos diversos capítulos e quase duas dezenas e meia de quadros preenchem a parte final da obra.
De salientar, também, o “Apêndice Documental” e a extensa lista bibliográfica que foi consultada para a realização do estudo.

Emigração e Dinâmicas Familiares – Aspectos sócio-profissionais e indicadores de alfabetização

A brochura, separata de “Estudos Regionais nº 16”, aborda a temática da emigração para o Brasil a partir do segundo terço do século XIX até 1860, nos concelhos do distrito de Viana do Castelo.
Centra-se em quatro problemáticas essenciais: elementos de um mesmo núcleo familiar que emigravam: pais, irmãos, tios e primos; nível de escolarização/alfabetização dos emigrados; profissões que desempenhavam na terra natal; e médias etárias quer dos titulares dos passaportes colectivos, quer dos seus acompanhantes.
O autor utiliza como fonte de estudo os registos de pssaportes colectivos emitidos pelo Governo Civil de Viana do Castelo. A partir desta fonte, elabora fichas de recolha de dados, que servirão de base aos gráficos que apresenta, com a respectiva leitura e conclusões.
Para além dos gráficos já referidos, o estudo é acompanhado, na parte final, por seis quadros, contendo dados sobre:
– Passaportes colectivos e médiaetárias por anos de saída;
– Distribuição mensal de passaportes para o Brasil entre 1858 e 1860;
– Distribuição de acompanhantes por titular de passaporte;
Tipos de assinatura de acompanhantes e portadores de passaporte colectivo;
– Distribuição profissional dos emigrantes do Alto Minho com passaportes colectivos saídos para o Brasil, entre 1837 e 1860;
– Portadores de passaporte colectivo por concelho do distrito de Viana do Castelo.
As últimas páginas do estudo comtêm as referências bibliográficas citadas no corpo do mesmo.

Ensaio Literário

“Ensaio Literário” é uma pequena colectânea de poemas – dezasseis poemas. Este inicia-se com uma dedicatória, que perspectiva o futuro: “Para todas as Crianças/ Homens de amanhã”. A maior parte dos poemas é acompanhado de gravuras ilustrativas do tema tratado.

Os poemas são antecedidos de epígrafes que remetem para o tema dos poemas. A primeira epígrafe – “Coisa mais pura não há/No mundo que nos rodeia/Aos homens uma lição dá/ e o seu amor é como uma teia” -, como uma espécie de adivinha aponta para a criança como tema geral desta pequena parte. Os poemas são, ao mesmo tempo, perpassados por temas mais interventivos socialmente.

A segunda epígrafe – “Finges não ver a verdade/Mas a culpa não é só tua/É de toda esta sociedade/Que anda a brincar na rua” – remete para temas mais reivindicativos e socais, como é o caso de “1º de Maio 82” que compara a voz do operário com o “Inverno agreste” e o “metralhar de uma guerra”.

A terceira e quarta partes, apenas compostas por um poema cada intitulados “Camões” e “A Vinicius de Moraes”, são antecedidas por excertos dos próprios poetas. No caso de Camões, surgem a primeira quadra e o último terceto do soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,” Parece que o poeta faz uma retrospectiva da história de Portugal, em tom de lamúria, pois “Simulam patriotismo, rancor dos privados, /Para amordaçar, tudo o que há de mais pobre.”. No segundo caso, a epígrafe é um poema de Vinicius de Moraes, que também dá nome ao poema. Neste poema exalta-se a figura que foi este poeta: “Foste a voz activa de um povo,”.

A última parte é antecedida pela epígrafe “Não peço aquilo que não me podes dar/E tu envolves a verdade nas trevas/Chorarei, nem que disso me venhas a chamar/Porque longas foram as minhas esperas”. Termina de forma irónica com o poema “Feliz Ano Novo”, apesar de novo ano “Peças viciadas são colocadas, /No tabuleiro da desgraça/Recalcam velhos lugares, De novo se juntam aos pares,”. Ainda se faz um apelo final para que haja um ano novo:”Quando de longe espreitar, /A virtude de um povo…/Então, viveremos a razão; /Lutaremos pelo pão; /E teremos o Ano Novo!”.

Espelho Quebrado

O eu poético de Espelho Quebrado realiza a busca obsessiva um tu, a perseguição frenética de uma relação amorosa eu – tu, onde soam nitidamente notas de mágoa, saudade, sedução, erotismo, angústia, desespero e solidão. Está sempre bem plasmada a referência à ausência não só do tu mas também do eu, na medida em que este se refere à queda num niilismo existencial sem qualquer possibilidade de salvação.

A omnipresença da natureza e a passagem inexorável do tempo são também leitmotive de uma poética que é o espelho da opção por uma vivência e o desejo agudo de ter enveredado por outra (vide poema 40).

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