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Espelho Quebrado

O eu poético de Espelho Quebrado realiza a busca obsessiva um tu, a perseguição frenética de uma relação amorosa eu – tu, onde soam nitidamente notas de mágoa, saudade, sedução, erotismo, angústia, desespero e solidão. Está sempre bem plasmada a referência à ausência não só do tu mas também do eu, na medida em que este se refere à queda num niilismo existencial sem qualquer possibilidade de salvação.

A omnipresença da natureza e a passagem inexorável do tempo são também leitmotive de uma poética que é o espelho da opção por uma vivência e o desejo agudo de ter enveredado por outra (vide poema 40).

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972-97535-1-2

Prefácio

POESIA DA AUSÊNCIA

O primeiro livro de Olívia Cardoso, Do outro lado de mim, apresentou-se com a imagem espelhada… e do meu também, da autoria de António Sílvio Martins. A simetria tanto do título como do texto, correspondendo a imagens focadas a partir de ângulos distintos, constituiu uma experiência única, penso, tanto para os autores como para os leitores.

Se é verdade que não há duas maneiras iguais de pensar e muito menos de sentir e dizer as coisas, tratou-se de um momento de partilha plasmado num objecto de contemplação e de discussão entre olhares diferentes. A colação de dois modos de se ver a si mesmos, de ver o mundo e de exprimir as emoções deve ter deixado marcas na escrita dos poetas.

A poeta, Olívia Cardoso, oferece agora ao seu leitor fiel uma colectânea de textos que escreveu entretanto e à qual deu o título de Espelho Quebrado.
Não sei se estava nas suas intenções estabelecer uma ruptura ontológica com o primeiro livro. O que me parece é que na leitura que faço do seu novo poemário, o espelho que quebra é o da imagem que o sujeito poético constrói (construiu) de um Tu objecto de uma busca obsessiva.

O livro que agora temos em mãos é percorrido pela angústia da impossibilidade da imagem do Tu abandonar o espelho. Dito de outro modo, estamos perante o medo de essa imagem não abandonar jamais a memória do sujeito. Assim se entende a necessidade visceral do Eu poético em quebrar a imagem do Tu enquanto representação construída pelo sujeito como verdadeira.

Ao tomar consciência do fracasso dessa relação, o sujeito angustia-se. Porém, a partir de metade da colectânea essa consciência conduz o sujeito poético à assunção da impossibilidade da sobreposição do objecto do desejo com o corpo desejado. O salto só se torna possível com a rejeição dessa imagem do outro. Daí a ausência.

Tendo apresentado uma leitura global do livro, subjectiva como não pode deixar de ser, vejamos alguns processos, temas e termos em que a poesia de Olívia Cardoso vai manifestando o universo expressivo dessa busca.

Cada poema assenta na complementaridade desejada entre um Eu e um Tu. Essa perspectiva assumida poderia levar a autora a optar por duas abordagens: centrar a expressão da identidade inerente a qualquer sujeito que pensa, sente e tem necessidade de o dizer; ou constituir como centro da análise o objecto do desejo.
Parece-me que há dois momentos diferentes no livro. Numa primeira parte a poeta opta nitidamente pela segunda abordagem: daí a existência de imperativos, exortati-vos, da negação, da caracterização do Tu associado ao Sol, à Lua, p.e., enquanto entidades impossíveis de aproximação ao Eu. Num segundo conjunto de poemas o sujeito assume a ausência do Tu, procura definir-se a si mesmo na sua multiplicidade como ser complexo que é e por isso passível de algumas incongruências que se manifesta no facto de se ter esquecido ou querido esquecer da ruptura assumida com o Tu. É aqui que surge reiteradamente a interrogação como tentativa angustiante de obter respostas, sabendo o sujeito dessa impossibilidade. Essa procura do conhecimento, ou melhor, do saber aquilo que o sujeito já sabe, constitui um dos aspectos mais emociais e cativantes da expressão poética. Com o mesmo intuito surgem as indicações de incompletude dos poemas (anotadas “incomp.”).

Nesse contexto, não pode deixar de reparar-se no poema Não sei de mim por constituir uma síntese muito bem conseguida do desespero. Essa verificação da sua própria ausência é a imagem reflectida final da outra ausência -a do Tu. A descoberta da alteridade que há em si mesma é confirmada pelo espanto do sujeito marcado supra-segmen-talmente pela exclamativa.
O momento mais dramático desta poesia essencialmente lírica surge quando essa descoberta da própria ausência conduz à aniquilação do Sujeito, que se transforma em Nada como no poema Sem ti.

O desespero que atinge o Sujeito nos poemas finais serão o corolário de um processo de busca inconclusiva no outro lado do espelho.
Mas da reconstrução do percurso nos falará, estamos certos, o próximo livro de Olívia Cardoso.

Benjamim Moreira

Excertos

3.

Junto ao ribeiro
Há musgo transpirando
Leve e macio

Não venhas já
Deixa que a pressa demore

40.

Eu vim pelo caminho errado
Tinha tufos, regatos cantando
Passarinhos num chilreio solene
De tão nobre ser a minha causa

Mas vim pelo caminho errado
Evitando o trilho aguçado da calçada
E o rasgar dos pés despidos de peles

E vim pelo caminho errado
Com sombras verdes de arvoredos
Refrescando-me as passadas
Mas não aliviaram a dor da chegada

…………………………….

O sangue fervilha nas veias infectadas

44.

Quero-te
Gota de orvalho
Em manhã de Abril

Quero-te
Deslizando meu corpo
Riacho serrano
Em tarde outonal

Quero-te
Brisa de maresia
Em praia de sargaço

Quero-te
Brasa ardente
Na fria lareira

Quero-te
De todas as formas

Quero-te
No aperto do abraço

Quero-te
No colo
………… no meu cansaço.

97.

Amanhece
Ainda não é manhã
Auroras flecham
E a noite sangra esperas
No manto da solidão
Archotes cegam os olhos
Turbados por neblinas precoces
Olho e o cinza ainda fica mais frio
Na minha noite
A Lua estremece com medo
Os sonhos afogam-se no rio cinzento e lodoso

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