Viana do Castelo

Espelhos de Alguém

A obra Espelhos de Cristal é uma colectânea de textos seleccionados que um grupo de vinte e nove alunos do Colégio do Minho produziu ao longo dos três anos que constituem o terceiro ciclo do Ensino Básico, em Oficina de Escrita, nas aulas de Português.

No prefácio sequente à dedicatória, explica-se, com algum pormenor, como despontou a ideia de publicação dos trabalhos produzidos, assim como as várias fases que conduziram à sua concretização.

O corpo da obra é constituído por cento e quarenta e seis textos (trinta e um em verso, cento e quatro em prosa e um que, sendo iniciado em prosa, termina com um poema), repartidos por cinco áreas temáticas, intituladas, respectivamente: “Homenagem”; “Recuando no Tempo”, “Olhando à nossa Volta”; “Ambições” e “Flashes de Inspiração”. Cada área temática é introduzida com um desenho alusivo ao tema, da autoria de quatro dos autores dos textos.

Encerra Espelhos de Alguém um texto denominado “Agradecimentos”, em que o grupo de autores demonstra o seu apreço e gratidão àqueles que o ajudaram no projecto.

LINHAS TEMÁTICAS

Apresentando-se a colectânea dividida, segundo o que nos é referido no prefácio, em cinco áreas temáticas, em cada uma delas podemos detectar vários subtemas. Assim, na primeira área temática, designada “Homenagem”, os dez textos que a integram têm como objectivo prestar um tributo a alguém que o autor considera especial. Em vários casos, os homenageados são ambos os progenitores (“Sois! Não Sois”, “Os meus melhores Amigos”, “Queridos Pais”, “Como seria se eles não existissem”, “Os nossos Anjos da Guarda”), havendo outros dedicados exclusivamente à mãe ( “A melhor Prenda é para ti, Mãe”, “Para ti, minha Mãe”), ao pai (“Pai, meu Anjo da Guarda”), a alguém não identificado (“Partilhar”) e à Virgem Maria (“Maria, também és minha Mãe”). Os dezasseis textos de “Recuando no Tempo”, a segunda área temática, são, primeiramente, um testemunho, na primeira pessoa, das vivências estudantis dos anos passados no Colégio do Minho, estabelecimento de ensino frequentado pelos autores. Os colegas, os professores, o edifico, as brincadeiras, os momentos mais marcantes de uma caminhada rumo à conclusão do terceiro ciclo de escolaridade são recordados em textos como “Três anos da minha Vida”, “Sete anos da minha vida”, “Nove anos da minha vida”, “Para sempre recordar”, “Crescendo para o mundo”, “Guardo na memória do coração”, “Recordações do Colégio”, “Sempre a aprender”, “São já uma lembrança”. Em “Momentos para recordar” e “Recordações”, os autores recordam, respectivamente, a perda do seu animal de estimação e um familiar próximo cuja imagem deixou uma marca indelével em toda a família. Existem ainda textos de ficção, em que os protagonistas ou vivem umas férias em Itália, tendo a oportunidade de conhecer várias cidades e monumentos daquele país (“Uma viagem a Itália”), ou nos transportam para um mundo dominado pelos mais belos sentimentos que, sem motivo aparente, se transforma num outro que é aquele em que vivemos (“Como tudo aconteceu”). Recordam-se também momentos de um passado feliz que não soube ser aproveitado (“Impossível voltar atrás”) ou a romanização da Península, segundo as memórias de um legionário romano (“Um jovem legionário”). Em “Olhando à nossa volta”, o conjunto de oitenta e três textos aglutinados sob esta designação centram-se à volta de uma questionação e de uma reflexão sobre o eu (“Eu”, “Tudo o que vejo”, “Universo – Uma fonte de vida e de amor”, “Sou apenas…”, “Sou único no meu Universo”, “A minha boa estrela”, “A Caminhada”, “A mãe Natureza”, “Facetas”), a missão que compete ou virá a competir a cada um dos jovens autores (“A minha profissão – Estudante”, “Aprender sonhando”) e o seu lugar no mundo (“Cidadão do teu Universo”, “Tenho o direito”, “Enquadro-me aqui”, “Um lugar ideal”, “Artesão do Infinito”, “Quem somos nós”, “Questões… Dúvidas… Incertezas”, “Olhando através de tudo”, “Arquitecto do Mundo”, “Uma missão a cumprir”), as emoções e os sentimentos que nos percorrem (“Reacções emotivas”, “Sensações antagónicas”, “O espelho da Alma”, “Coisas boas que nos fazem sentir bem”, “Razões para chorar”, “Fiquei com lágrimas nos olhos”, “Coisas do dia a dia”, “Continuar”, “O Fogo do Amor”), as contradições do mundo (“Um mundo contraditório”, “Os contrastes do mundo”), o futuro (“Futuro – Uma fantasia distante”), a vida (“A mais bonita Tela”, “As estações da Vida”, “Mais do que um caminho”, “Um caminho… Um rumo… Um destino”, “Do Infinito ao Paraíso”, “Caminhos que vou pisando”, “O labirinto da Vida”, “Amar com amor”, “A vida”, “Quotidiano”) e as opções que temos de tomar ao longo dela (“Aprendendo constantemente”, “Opções”, “O prazer de uma escolha acertada”, “Caminhos contraditórios”), a escrita (“Mais do que uma inspiração”), a leitura (“Horas passadas mais depressa”), o Universo (“Imensidão”, “Cidadão do Universo”), o espaço ideal para ser feliz (“Uma longínqua aldeia que possuía um vale encantado”, “Um espaço multicolor”), a amizade (“O reflexo da amizade”, “Um segredo para desvendar”, “O segredo da amizade”, “Amizade, o que serás tu, afinal?”, “É difícil definir”, “Amigo, encontro-te no silêncio”, “Um gesto maravilhoso”, “Procuro um amigo”, “Uma conquista difícil”), a juventude (“Somos uma geração fantástica”, “Somos assim”, “Acróstico”) e a alteridade (“Afinal, somos todos iguais”, “Eu e os outros”, “Outros que não eu”, “Alguém”, “Mundos diferentes e tão iguais”, “A voz da sabedoria”, “Perspectivas”, “Outros diferentes de mim”, “Um profundo desejo”, “À volta do meu pensamento”, “Os Outros”, “Uma vida de antíteses”). “Ambições”, assim se denomina a quarta área temática, apresenta-nos vinte e um textos (dezassete em prosa e quatro em verso) subordinados a subtemas como a concretização de desejos e esperanças (“Desejos… Esperanças… Ilusões”, “Acróstico”, “Fazem parte de cada um de nós”, “São mais do que projectos”, “Dão sentido à nossa vida”, “Caminham a nosso lado”, “Três palavras perdidas: Desejos, Esperanças, Ilusões”), a busca de algo (“Ando à procura”, “Em busca de algo”, “Desejo encontrar”, “Conhecerei o que procuro?”, “Procuro”; “Razões para procurar”, “Corro ao encontro”, “Ajudar a viver”, “Professor?”, “Correr”), o desejo de mudança (“O sonho”, “Lutar para transformar”) e de descoberta (“Descobrir”).

“Flashes de inspiração” englobam catorze textos, cinco dos quais em prosa e nove em verso, focando temáticas que se relacionam com a criatividade e o poder de imaginação dos seus autores. Alguns deles versam sobre a imagem que cada autor criou do que poderia ser o Infinito e de como proceder para lá chegar (“Viajando até ao Infinito”, “Até ao Infinito”). Em “Entre alegrias e desencantos”, são abordadas estas duas facetas da vida: a alegria e a desilusão e em “O que escrever?”, faz-se uma reflexão sobre o binómio pensamento/escrita.

A capacidade para a produção poética é focada em “Todos somos poetas” e “Ser poeta”; o amor é tema em “Como dizer o amor?” e “Amar” e o sonho surge em “O sono” e “Um sonho tornado aventura”. Recordações é o tema de “Lembranças” e o respeito pelo estipulado como trampolim para o sucesso é-o em “Vencer”. No poema “Alma”, o mar surge como espelho da alma e em “Sentir” salienta-se a importância das sensações como ponto fulcral da vida.

Essas Criaturas de Deus

Esta coletânea de contos inicia-se com uma dedicatória aos seus filhos, Sandra e Fernando José.

Segue-se uma nota introdutória de Francisco Pitta, onde se salienta o valor dos temas, a recriação de cenas e personagens, a descrição do espaço assim como o vocabulário sugestivo e a musicalidade do discurso.

Esta coletânea é composta por quatro contos: “Contrabando”, “Fogos Fátuos”, “Já não há Lobos na Serra” e “Essas Criaturas de Deus”, que também serve de título à obra. Cada conto é antecedido de uma epígrafe, apontando para o seu tema.

“Contrabando” inicia-se com uma descrição do espaço minhoto e rural, salientando-se a “latada prenhe de uvas” onde os homens se juntavam, de Verão e de Inverno, para jogar às cartas e relembrar os árduos e velhos tempos. É neste cenário de final de tarde, que se alarga até às doze badaladas, onde decorre a acção. Manel da Zira, Luís da Berta, Raimundo Azeiteiro, Aníbal Coxo, Salgueirinho, Armando do Casal e o sr. Veiga, regedor vitalício, juntam-se na tasca do Zé da Loja e comentam a atitude dos “rapazes” que se dedicavam a trabalhos mais rentáveis e menos árduos. Estes trabalhos resumiam-se ao contrabando de café com o outro lado do rio, com os espanhóis. Alguns destes homens consideravam estes jovens “madraços”, não querendo trabalhar no duro,”nem querem queimar a pele nem criar calos nas mãos ou comer buchas de pão com uma manada de azeitonas”. Outros consideravam-nos destemidos, “aventureiros” e capazes de procurar um “bom lucro”. Cada um deles dá a sua opinião à medida que o tempo passa. Cada um vai dando a sua opinião e “deitando achas para a fogueira”. O tempo também vai passando e aproxima-se a meia-noite. De repente ouvem-se vozes e ressoaram pés a bater. De súbito, a aldeia acordou e aqueles homens juntos na tasca do Zé da Loja concordaram que havia “coisa grossa!”. Os rapazes foram apanhados pelos carabineiros: fugiram… e um foi atingido, permanecendo o “cadáver meio afundado no lodo” do canavial. O grupo apressou-se em direcção ao rio. O sr. Veiga “mantinha-se à frente” para tomar conta da ocorrência. Os candeeiros aproximaram-se e voltou-se o cadáver. Neste momento, “a teoria pedagógica de um educador que se julgava insuperável” desmorona-se. Este educador é o sr. Veiga e o rapaz atingido é o Carlos, filho do sr. Veiga.

À semelhança do conto anterior, também este possui uma epígrafe, neste caso de Unamuno – “Yo no creo en brujas,/Pero que las hay, las hay!”. Envolta num ambiente soturno, as “coisas” apareciam “à última badalada da meia noite”, andando à roda dos muros sem proferir uma palavra, segundo o tio Chico Gameiro, que perfazia noventa anos. Segundo este, em noite de lua cheia, ao soar as doze badaladas surgia a procissão dos mortos junto ao portão do cemitério. O seu amigo Arcanjo Cebola morava do outro lado da mata e percorria aquele local ermo e escuro para chegar a casa. Um dia, ele viu a procissão dos mortos e não chegou a casa, aparecendo estendido na “estradinha do cemitério”, deitado de costas e com marcas de quem tivera apanhado um bofetão. Foi esta história que o tio Gameiro contou aos rapazes e moçoilas casadoiras, na taberna do Quim Adegas. Estes, ora para mostrarem a sua valentia perante as moças ora para comprovarem a história do tio Gameiro, marcaram dia e refizeram-na. “O promotor da emboscada”, Luís Enguia, “o sócio principal por via dos proventos”, Berto da Mira, e Domingos Barrote, “arrastado na corrente”, percorreram o caminho e chegaram ao cemitério perto da meia noite, apenas esperando o bater das doze badaladas. Os três permaneceram no local, apesar do receio já manifestado entre palavras, mas tinham que provar a sua valentia e demonstrar que a procissão dos mortos não passava de fruto da imaginação, de uma “parvoíce pegada”. O Enguia, “varre-feiras de nome firmado” e o “promotor da emboscada” colocou-se em frente ao portão do cemitério, com as mãos nos bolsos. Enquanto Domingos Barrote convidava o Berto da Mira a ir embora, o Enguia caía de costas. Num movimento brusco levantou-se e fugiu daquele lugar, deixando os outros dois estupefactos. Pensavam que o Enguia estava a pregar mais uma das suas partidas. O facto é que este não surgiu do meio das veredas e, mais tarde, encontraram-no no centro da aldeia, “sentado de costas apoiadas num candeeiro”, sem entender o que se tinha passado. Aliás, nenhum dos três tinha percebido o que acontecera: o facto é que o Enguia tinha apanhado um estalo, à semelhança do Arcanjo Cebola, e culpava os amigos. Então perceberam que “os traços indeléveis impressos no rosto do Luís Enguia, a não ser que tivessem uma explicação ainda mais miranbolante, testemunhavam que tinham estado muito perto daquilo que o tio Chico Gameiro se fartava de citar e o Arcanjo Cebola vira sessenta anos antes de morrer”.

Este pequeno conto apresenta uma particularidade, pois as personagens não têm nome. “Já não há lobos na serra” possui número reduzido de personagens: o avô e o seu neto. O avô, que surge somente no início do conto, transmite todos os ensinamentos na arte de pastorear ao seu neto, seu sucessor.

O conto relata-nos o primeiro dia de pastoreio do pequeno rapaz, desde o momento em que o rebanho se juntou no “pelourinho cruciforme plantado no centro” de Pedreira de Cima até chegar à serra. A missão do pequeno rapaz era pastar o rebanho colectivo – “coisa de trezentas cabeças” – com a ajuda do Piloto, o cão. Refira-se o facto de só o cão e uma pequena cabrita – “Pinta” – possuírem nome.

Para este primeiro dia, o aprendiz teve a ajuda do mestre, seu avô, que o acompanhou até à “carvalheira do Brasileiro”. A partir daqui, o rapaz estava sozinho. O pequeno pastor estava um pouco receoso, ora por medo ora por receio de perder algum animal ou por receio de se enganar. O velho pastor incentivava-o, referindo o seu passado de pastor e os seus ensinamentos (“Ensinei-te tudo e levei-te tantas vezes à serra que sabes de cor os abrigos e os pastos”). Ainda salientava que a serra já não é como era, pois metade estava queimada, o resto era plaino e “já não havia lobos na serra”. Metaforicamente, estes surgiram ao pastorzinho. Depois da subida fatigante, o pequeno pastor sentou-se para descansar e eis que surge serra acima um carro vermelho e pára, forçosamente, perto do rapaz.

Inicialmente, pensa que são turistas que vêm ver a serra, tirar fotografias. Estes cinco ocupantes do carro querem comprar um cabrito e oferecem dinheiro ao pastorzinho que, apenas, consegue referir que não são para vender. Entretanto, os cinco espalharam-se no meio do rebanho e levaram um cabritinho. O pequeno pastor ficou caído no chão e o carro desceu serra abaixo. Levanta-se e vê que no final da vereda crepita ferro retorcido. “Não há gente caída nem sinal da “Pinta”. De repente, ouve um balido tímido. Era a “Pinta” que se encontrava caída no meio das tojeiras, com uma perna partida. O rapaz corre na sua direcção, tira-a dali e afasta-se daquele local, mas deixa debaixo de uma pedra as notas que os ocupantes do carro lhe haviam dado.

Segue-se o último conto que dá nome à obra – “Essas criaturas de Deus”. Este conto é o mais extenso e está dividido em pequenas partes, uma espécie de capítulos, na qual se entrecruzam as histórias do senhor Zuzarte e do “pedinte-pobrezinho-jorge”. A maior extensão do conto é ocupada com o convite do senhor Zuzarte ao Barata para a festa de Carnaval, no “Executivo’s”, a preparação para a dita festa de Carnaval, a festa e a eleição do rei e da rainha e o pós-festa. Depois de recuperar da referida festa de Carnaval o senhor Zuzarte e sua esposa, Dona Antonieta, partem rumo à “vilória”, à casa de campo. Aqui assistiram à procissão do Senhor dos Passos e depararam-se com a presença indesejada do mendigo, que discriminaram. Neste conto estão patentes duas condições sociais do homem: o rico, que ostenta a sua vaidade, ostentação e recriminação social e o pobre, que se resigna à sua situação social.

Etnologia: Alto Minho (Distrito de Viana do Castelo)

A obra apresenta na capa o título Etnologia e na folha de rosto Etnografia do Alto Minho. É, na opinião do Autor, “um subsídio para o estudo das Artes Populares, Trajes e Folclore no Alto Minho”.

António Paço reuniu, de forma organizada, os aspectos mais significativos da cultura da região e divulga-os, promovendo a sua valorização.

Os belos e riquíssimos trajes regionais das diferentes freguesias são apresentados na sua evolução, descritos na sua constituição e na forma como são executados. Naturalmente, os ranchos folclóricos ocupam lugar de destaque, com referência à sua origem e aos aspectos que melhor os caracterizam.

As actividades artesanais, das diferentes freguesias são dadas a conhecer, quer pelo depoimento dos próprios artesãos, quer pelas informações que o Autor foi recolhendo na sua investigação.

Existências

É uma obra que,segundo o prefaciador,”partindo de circunstâncias concretas, o autor leva-nos, pela mão da palavra fácil e precisa, partindo do seu subconsciente, até à manifestação do consciente colectivo, o espaço do esquecimento onde depositamos os outros, a relação não querida com os demais, as questões e os problemas para os quais deveremos buscar soluções e de que sempre fugimos.”

Fala de Uma Professora ao Volante no IC1

Uma “circunspecta e vulgar professora do Ensino Básico” percorre, ao volante do seu Seat Leon Tdi 1.9, os 70Km que separam Viana do Castelo do Porto.

Ao longo desta viagem – que ela mede em tempo e já não em Km – arrastada pelo “rio do pensamento” vai divagando, em ameno diálogo, (ou será um monólogo a 2 vozes?…) com a “criatura” a quem, hoje, deu o dom da fala mas que só ela vê e ouve.

Assim, seguindo o fio do pensamento, esta viúva de um “defunto falecido”, esmagado por um “atrelado voador” na IC1, vai tecendo, com ironia e sarcasmo, os mais inesperados comentários sobre variados assuntos: professores, alunos, vizinhos, algumas figuras da cidade, o ensino, a política, a cultura, o racismo, a moral, … Os temas sucedem-se, cruzam-se, tecendo uma teia que não tem outra trama a não ser o divagar do pensamento porque, como a própria personagem explica, “o rio do pensamento é isto mesmo, não tem nascente, nem margens, menos ainda foz ou bússola para se orientar”. Só que, de vez em quando, é assaltada pelos “tumultuosos pensamentos roxos” que tanto a atormentam e dos quais se defende elaborando, mentalmente, listas de compras de supermercado.

No entanto, à medida que constrói um retrato corrosivo da nossa sociedade, com seus preconceitos e hipocrisias, esta mãe de dois adolescentes vai sendo confrontada, graças às intervenções da sua “interlocutora”, com os seus próprios medos e reais problemas pessoais. Ao longo desta viagem, que se repete diariamente, há já três anos, com espírito de sacrifício, tal “quotidiana peregrinação”, acaba por tomar consciência do desleixo que inundou a sua vida e o seu ser. Sem tempo para nada nem para ninguém (incluindo ela própria), dividida entre os filhos, a casa, a escola e a empresa PLURIPESSOA (que persiste em manter em mémória do falecido), amarga e ressentida, apercebe-se do caos que tomou conta da sua existência. A empresária pouco faz e menos gere mas desgasta-se com o despreso do Senhor Mário Santinho Isabel, ex braço direito do falecido; a professora perde os testes dos seus alunos e só os descobre, graças a uma travagem brusca, quando já outro ano lectivo está prestes a iniciar; a mãe pouco vê os filhos, cada vez menos os conhece e nem sabe se a filha reprovou; a mulher não tem tempo para nada e menos ainda para ir ao cabeleireiro pintar os “subversivos cabelos brancos” que tantos a incomodam; o carro, de tão sujo, já nem tem cor definida… Com tudo isto, será que o cabelo vermelho da filha e o gosto do filho pela arte da culinária haviam de a preocupar? Pois é precisamente isso que parece sugerir a “Voz” que ela acusa de ser “uma má consciência”.

Mas é numa segunda parte, desta vez numa narrativa feita na 3ª pessoa do singular, que tomamos conhecimento do desfecho e ficamos a saber quais as consequências destas deambulações pelos meandros do pensamento (consciente ou não). É o momento de fazer escolhas, de tomar decisões, de olhar para o presente e retomar a vida.

Um “golpe de asa” antes do regresso definitivo pela IC1 em direcção a Viana do Castelo.

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