Viana do Castelo

Culpado me Confesso

APRESENTAÇÃO GLOBAL

Culpado me Confesso é uma narrativa autobiográfica em dezasseis capítulos, antecedidos de um prólogo. Precede a narrativa propriamente dita uma dedicatória, em que o autor oferta a obra aos seus filhos (um biológico e outro afectivo) e a todo o ser humano portador de uma qualquer deficiência, e que, malgrado esta, ousa lutar e vencer. Ainda antes da narrativa, o leitor depara-se com um texto em verso que constitui o mote da mesma e, de certa forma, marca a antítese passado/presente na vida de José Leones Lima, confrontando o leitor com a efemeridade da vida e fazendo-o constatar que não é mais do que um “bicho da terra tão pequeno”, perante a força do tempo, do destino ou simplesmente do acaso.

Na badana da capa, encontra-se um excerto de um dos escritos de Albert Einstein e na contracapa uma apreciação crítica à obra.

LINHAS TEMÁTICAS

Tratando-se de uma narrativa autobiográfica (conquanto nos seja referido na página em que se encontra inserida a dedicatória que se trata de uma “obra de ficção” e que “qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”, o que o narrador/protagonista vai desmentindo ao longo da narração), a linha temática geral de Culpado me Confesso é constituída pelas vivências do autor, com enfoque especial para as circunstâncias que motivaram o acidente ocorrido durante a sua estada, por motivos profissionais, num país do continente africano, que nunca é identificado, e do qual resultou a paraplegia.

Dispersos pela obra, identificam-se, no entanto, três temas fundamentais, que o autor faz questão de destacar dos demais, todos analisados segundo o seu ponto de vista, muitas vezes deixando transparecer uma certa ironia, outras uma profunda raiva, outras ainda um misticismo e um desejo de comunhão com o infinito e a divindade que, segundo Leones Lima, está na origem do mundo, da vida e do ser humano. São esses temas: a mulher (como profissional e afectivamente), a luta do deficiente pela sobrevivência e Deus (o Arquitecto Supremo). É com o relato do momento mais dramático da sua vida (sábado, dia 13 de Dezembro de 1997) e das consequências físicas, psicológicas, sociais e afectivas posteriores que o autor inicia a narrativa e ao qual dedica, em sequência temporal linear, por vezes interrompida por analepses e prolepses, os primeiros nove capítulos, não se abstendo também de fazer comentários e reflexões sobre as temáticas dominantes na obra, assim como algumas outras que nela são afloradas: Deus, sua omnipotência e a religião; o egoísmo humano; a visão, o mais das vezes errada, que a sociedade desenvolve de um deficiente motor (paraplégico); a própria vida; a força do destino e a mulher.

No décimo capítulo, usando uma analepse, a narrativa recua até à infância do narrador, para prosseguir com a narração dos acontecimentos mais marcantes dos anos que antecederam a viagem a África, terminando com um grito de esperança de que, apesar das vicissitudes que a vida lhe destinou (e continuará a destinar?), acredita firmemente que vencerá.

Merecem destaque especial, nesta narrativa, os momentos em que José Leones Lima nos transporta para o continente americano e nos coloca em contacto com as paisagens paradisíacas do Amazonas e tribos selvagens que aí habitam, suas crenças, lendas e modos de vida (capítulo XI), assim como quando nos dá a conhecer a situação política e social vivida na Venezuela nos anos 80 e 90 do século XX (capítulo XIII) ou ainda quando informa sobre as propriedades medicinais de alguns frutos (capítulo III). De salientar, também, que, ao longo da obra, o narrador/autor interpela frequentemente o seu narratário, convidando-o a recordar passagens anteriores, a reflectir sobre o relato e comentários que o acompanham. Deixa no ar questões, pretendendo que as mesmas se transformem em pontos de meditação para o narratário/leitor.

VISÃO GLOBAL DE CADA CAPÍTULO

Capítulo I Razões familiares, sentimentais (principalmente) e profissionais levaram o protagonista a aceitar o convite para trabalhar num país do continente africano. A estada que, a princípio, seria de alguns meses, acaba por se prolongar por três anos e, dois dias antes do regresso, aquando da realização do último trabalho, eis que sofre um brutal acidente que o deixa paraplégico.

Capítulo II Acordando de um estado de quase morte e lutando com todas as forças para resistir ao abismo que constantemente o convidava a claudicar, o protagonista é transportado a um hospital local onde é intervencionado cirurgicamente. Aí recebe a notícia de que havia fortes hipóteses de ficar para sempre dependente de uma cadeira de rodas. A dor de tal constatação aliava-se a outra ainda maior: a de comunicar à família a ocorrência e as consequências que daí adviriam. Assim se passam doze dias, tempo que mediou entre o acidente e a viagem de regresso a Portugal.

Capítulo III A chegada ao aeroporto traz consigo o primeiro contacto com a família, sobretudo com a esposa e filho, então com dez anos, recusando-se este a aceitar que o protagonista era, de facto, o pai que ele conhecera. É internado no hospital de Santa Maria, em Lisboa e submetido a várias intervenções cirúrgicas, a primeira das quais com o intuito de debelar um problema respiratório devido à rotura, em dois locais diferentes, do diafragma. Três meses volvidos, regressa ao Alto Minho, onde é internado numa unidade hospitalar da zona. Aí, depois de várias peripécias que o protagonista relata, e após alguma preparação, que o próprio considera insuficiente, para enfrentar o mundo com a sua nova condição “ de deficiente”, volta a casa. Estava-se em Julho de 1998. Sujeito, como a maioria dos deficientes motores, às chamadas úlceras de decúbito, também estas acabam por conduzi-lo a novos internamentos, alguns dos quais se prolongaram por vários meses.

Capítulo IV Fazendo uma pausa na autobiografia, todo o capítulo é dedicado a reflexões e considerações sobre a vida do deficiente, a visão que dele tem a sociedade e o tratamento de que é alvo por parte dessa mesma sociedade.

Capítulo V Voltando à narração autobiográfica, o protagonista dá-nos conta dos esforços desenvolvidos no sentido de se tornar autónomo e de voltar a ser o pilar e base de sustento da sua família. Refere os problemas de saúde que lhe advieram devido ao trabalho desgastante que desenvolveu, a indiferença da família próxima (quiçá o desrespeito pela sua pessoa e direitos familiares) e a greve de fome que foi obrigado a enfrentar, durante vinte e cinco dias, como única medida capaz de lançar sobre si o olhar de uma sociedade incapaz de lhe prorrogar um prazo para pagamento de uma dívida de IVA.

Capítulo VI Situando-nos temporalmente no início de 2004, o capítulo é dedicado à ruptura do seu casamento e razões que motivaram tal decisão. Alude-se, de passagem, a mais um internamento hospitalar a que o narrador já tinha feito referência anteriormente.

Capítulo VII Depois de referir uma primeira relação afectiva “platónica” com alguém também frequentador do site dos Deficientes Activos, após ter deixado a casa onde residia, o protagonista dá-nos a conhecer momentos de uma segunda relação e as causas que determinaram o seu desenlace.

Capítulo VIII Novamente no hospital, neste capítulo, o leitor é confrontado com o quotidiano desta unidade de saúde, filtrado pela análise subjectiva de quem viveu e sentiu os acontecimentos relatados. Os diversos procedimentos do corpo de enfermagem, as atitudes de certos médicos e outros aspectos da rotina vivida num espaço desta natureza são-nos apresentados, por vezes, num tom irónico, noutras, revestidos de uma ponta de dramatismo, deixando transparecer uma imagem nem sempre elevada de quem se dedica à saúde.

Capítulo IX As barreiras com que Leones Lima se depara após a alta hospitalar (procura de uma casa cujas condições estejam adaptadas a um paraplégico e a sua vida até conseguir um apartamento com tais características, as diligências efectuadas para conseguir um emprego que lhe permita subsistir) constituem o fulcro do capítulo, em que há ainda espaço para nos transmitir a imagem que, segundo o narrador, a sociedade tem de um paraplégico e as capacidades que este possui efectivamente. Uma vez mais o leitor é levado a reflectir sobre os cuidados e atenção que o ser humano (não) dedica ao seu semelhante portador de uma deficiência, o mais das vezes votado ao esquecimento, até por parte da própria família. Para melhor marcar a diferença entre o procedimento do homem e o dos animais relativamente ao seu semelhante, o protagonista recorda as atitudes dos gansos durante as suas migrações, sobretudo quando algum elemento do bando se encontra ferido e não pode seguir a rota de migração juntamente com as outras.

Capítulo X Surge, neste capítulo, a grande analepse da obra. Nele somos enviados para as origens do protagonista, sua infância (passada esta no seio de uma família que valorizava sobretudo o trabalho braçal dos seus membros e menosprezava aqueles que elegiam o conhecimento e a curiosidade intelectual e científica como uma prioridade), adolescência (com a primeira tentativa frustrada de saída do ambiente familiar), primeira juventude (vivida em Setúbal, onde contacta com o movimento hippie), terminando no momento em que decide assinar o contrato de trabalho que o conduzirá até à Venezuela.

Capítulo XI Entremeando a narrativa autobiográfica com algumas descrições, o narrador autodiegético leva-nos a conhecer a maravilhosa selva amazónica, rica em vegetação luxuriante, local onde passou férias inesquecíveis, em contacto com as tribos índias que aí habitam. Tal contacto possibilitou-lhe o conhecimento de lendas e crenças em que esses povos acreditam e que têm passado de geração em geração. Regressando à sua autobiografia, salienta o trabalho desenvolvido na Venezuela, realçando o estado de quase morte em que ficou um dos técnicos que com ele trabalhava e como o conseguiu superar, algumas das suas vivências afectivas, culminando no seu casamento com “a morena mais linda que jamais vira”.

Capítulo XII A primazia dada ao percurso profissional do protagonista, em terras venezuelanas e o enfoque dado aos seus ídolos (Isaac Newton, Robert H. Goddard, Michael Faraday, james Clerk Maxwell e, acima de todos, Albert Einstein), levam o narrador a lançar mão uma vez mais a analepse para se centrar, novamente, na sua infância e relatar episódios dos quais emerge a força de vontade para conseguir vencer a oposição familiar que lhe era movida, sempre que tentava informar-se, através da leitura, sobre assuntos que lhe despertavam interesse. O contacto com literatura de temática científica, sobretudo na área da electricidade e electrónica, permitiu-lhe a aquisição de novos conhecimentos e a realização de experiências rudimentares, mas que serviram para que ele próprio testasse as suas capacidades e apetências para a área da sua predilecção. Nas páginas finais do capítulo, são-nos narradas algumas peripécias que antecederam o nascimento do filho.

Capítulo XIII Deixando transparecer o grande amor e toda a emoção que se vive aquando do nascimento de um filho, o narrador apresenta-nos páginas em que a criança e os seus primeiros anos de vida se tornam o centro do seu mundo. Além deste aspecto e vivendo-se o início dos anos 90, época conturbada na Venezuela, é-nos igualmente narrado o estado caótico em que o país vivia, levando o protagonista e sua família, também eles vítima do saque e do vandalismo da população, a equacionarem verdadeiramente a hipótese de regresso a Portugal, acabando por concretizá-la.

Capítulo XIV O regresso à terra natal e o processo de aculturação, tanto por parte do protagonista, como da esposa, habituados a outro ambiente sócio-cultural, com padrões de vida totalmente diferentes dos vigentes entre a população rural do Alto Minho, são aspectos que sobressaem neste capítulo. É ainda o momento em que o narrador nos confidencia mais algumas feições da sua vida profissional, cujo desenrolar acabará por culminar com a aceitação do convite de trabalho em terras africanas. Ao longo das páginas deste capítulo, são vincados também aspectos relacionados com a hipocrisia social e com o egoísmo e a inveja humanas.

Capítulo XV Quase no terminus da sua autobiografia, José Leones Lima construiu este capítulo à volta do péssimo ambiente de trabalho que o rodeava, o qual veio a motivar a rescisão do contrato e a opção de trabalhar por conta própria.

Capítulo XVI No epílogo da narrativa, o leitor toma contacto com mais alguns factos que despoletaram a aceitação da viagem ao continente africano e é conduzido ao momento em que a narração principia: o acidente aquando da verificação da maquinaria que uma empresa vendia para um Ministério de um país de África. O autor conclui a obra com um agradecimento a todos quantos leram a sua narrativa, deixando-nos a sua certeza de que, apesar de todas as adversidades, está convicto de que vencerá.

Deste Lado da Vida

O Congresso dos Bruxos-Uma Necrófila Cultura- Os Dias da Ira-O Animal Religioso-Não Zombeis do Amor-O Rosto da Ressurreição- A Abelha e a Mosca- Em busca do Paraíso-Vida Para Além da Morte-Quo Vadis, TVI?-A Pergunta de Pilatos-Comunismo Sem Deus ou Capitalismo sem Humanidade?-Em busca do Demónio- Silêncio, são a procura de um sentido para lá das sinalizações que amputam, ao homem dos nossos dias, a dignificação pessoal ou a simples e consoladora possibilidade de visualizar o mundo e a vida por outra janela que não a do …pronto-a-pensar.

 Não haverá um horizonte -outro?, para lá dos contemporâneos e competitivos dogmas que impedem cada homem de ser tornar verdadeiramente humano? Isto é: autónomo e solidário?!

 O doce sonho de construir a felicidade não pode sobreviver para além da inocência da infância?

 E porqur é proibido que seja o coração a orientar a vida?

 Será cada Leitor, afinal, quem avaliará as reais alturas ou abismos de Morte ou Sequestro-Os Novos Prostíbulos-Malignidade-Macacos de Imitação- O Irmão Ubaldi- Em Busca do Demónio- Não Crêem no que Acreditam-Um Mundo de Muitos Reinos- , porque sendo, em derradeira instância, o dono deste livro, dele fará um amigo de confidências ou verá nele um espelho de deformadas imagens.

 De qualquer modo, este livro pode ser motivo de reflexão ou, simplesmente, de avulsa leitura nos breves instantes de respiração consciente que restam do caótico e sonâmbulo trânsito da vida.

Do Cisma Clerical à Patuleia em Viana do Castelo

Este ensaio aborda as divisões no seio do clero no período que se segue à extinção das ordens religiosas. Estas divisões não se limitavam aos partidários do liberalismo e aos fiéis de Roma, mas também no seio destes entre pereiristas e falperristas. Estas divisões e os conflitos a elas associados contribuíram para o clima político e social que esteve na origem do movimento da Patuleia.

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