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Chamada Escrita

O livro “Chamada Escrita” é constituído por sete pequenos contos cujos títulos correspondem aos nomes dos protagonistas das histórias: Benjamim; Maria da Conceição; Ofélia; Maria Helena Tavares; Ribeiro; Inês; Fernando Pitta. Com a vida destas personagens vivencia-se a realidade, nalguns aspectos ainda muito actual, das nossas escolas.

(Cf a Nota Preliminar em Comentários/Estudos)

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Conheça o autor

"Nasci num fim de tarde vulcânico quando os Aliados punham as botas libertadoras nas praias da Normandia, e milhares deles viam um anjo alado sair-lhes do corpo e subir ao céu. Nenhum terá percebido que se tratava da própria alma. A parteira veio confirmar o milagre do nascimento, e tão engalanada como se viesse saudar o príncipe. Tinha razão eu era o príncipe. Horas depois, já com a noite posta, o meu pai pegou-me ao colo e levou-me à janela para poder contemplar o castelo que foi morada de D. Diniz, e sentir correr as águas do rio Liz. Os grilos cantavam e havia um Zéfiro benigno que chegava dos lados do Atlântico, empurrado pelas mãos de Diunisius. Ao levantar-me no ar, sob o céu de estrelas, o meu pai, que era um comerciante próspero mas dados a enigmas esotéricos, disse-me:"Eis o Universo a que pertences. Dele viste e para ele partirás". Isto marcou a minha personalidade curiosa, enciclopedista, de querer saber tudo. E marcou-me também com uma certa ingenuidade cósmica de que não me consigo libertar. Foi um parteira engalanada que me recebeu mas poderia ter sido Rousseau. Os saberes liceais nunca me interessaram e por isso fui mau aluno, com notas péssimas a Português. Mas cedo descobri o abismo da leitura com Camilo, Verne e Eurico Veríssimo. Eça era um proscrito. No burgo onde eu nasci, ele colocara um tal Amaro, padre lúbrico, uma Amélia destemperada e uma paralítica possuída pelo demónio. Naqueles tempos de salazarismo beato, os meus conterrâneos não lhe perdoavam a desfaçatez de denegrir a terrinha. Só aos sessentas anos é que comecei a escrever a sério, depois de aposentado, movido de uma insatisfação crítica que nunca me abandonou. Faço-o na terra que adoptei como minha, um burgo altiminhoto bailadeiro, atraente e dono satisfeito da maior romaria portuguesa. Portuguesa? Não. Planetária. Os meus estudos universitários em Lisboa foram marcados por um acontecimento singular. Assisti ao primeiro espectáculo da Comuna "Para Onde is?" que me deixou alucinado e devoto pelo teatro. Percebi que havia mais mundo para lá da rua em macadame em que nasci. Nos dois finais no Liceu em que chumbei, escrevi todo o texto para as récitas de finalistas e numa delas até coloquei a Nanda e a Litas (duas maternais prostitutas que nos desmamavam com muito carinho) a falar em cena. Por causa disso, fui chamado ao reitor, e eu , a tremer de medo, ouvi-lhe estas palavras: " Só não te expulso porque reconheço em ti a qualidade dos grandes escritores." Devia estar a confundir-me com o Saramago ou com o Mário Cláudio, o meu escritor de eleição. A verdade é que em toda a minha vida nunca vi ninguém que se tivesse equivocado tanto. Tenho ainda muito tempo para viver e penso deixar muitas obras escritas. Agora que me escutem, pois até aqui, por causa da minha curiosidade, só sabia escutar as vozes dos outros. Penso morrer em 2020 - é um número bonito, equilibrado - e até lá tenho muito para escrever, bem mais do que o tempo que me resta para viver. Depois regressarei, segundo o meu pai, ao lugar donde vim: algures na Via Láctea."
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Prefácio

NOTA PRELIMINAR

O presente livro não é, na ordem pedagógica, um ensaio, um estudo, uma abordagem reflexiva. Nem tem carácter de investigação. Ultrapassa os parâmetros da análise objectiva, melhor, passa-lhes de lado.

Vai directamente à realidade escolar portuguesa recorrendo à ficção. Ficção que não sendo pura e erradia invenção, alimenta-se de uma instituição – a escola.

É um livro de contos, cada um com origem em acontecimentos concretos, todos eles vividos pelo autor de uma forma directa ou apenas relatada. Fugaz, desenquadrado, cada acontecimento constitui o mote, escrito em redacção quase jornalística. Dali se parte para o conto propriamente dito, a glosa, operacionalizando-se a realidade. O autor deixa, então, as suas capacidades heterónimas ganhar forma, a sua força inventiva espraiar-se, corporizar-se o devaneio.

É por isso um livro diferente, já que os alunos têm nome, os professores um apelido, os funcionários uma identificação. Outros intervenientes, uma alcunha. Não são apenas dados anónimos de uma qualquer lucubração de pedagogo ou metodologista. Nas suas páginas ergue-se uma escola com rosto.

No livro descobre-se uma pedagogia latente. Não foi parida em gabinetes, não sofreu a prova dos nove dos inquéritos e das estatísticas. Pouco terá bebido na efervescência cultural francesa, talvez nada no tecnicismo americano. É, no entanto, uma pedagogia nossa, balisada no bom senso e no bom gosto. Sofre as nossas carências, vibra se necessário, transcende-se. E troca os “vês” pelos “bês”, escreve “porvessoura”, na aula goza os “profes” de empatia bloqueada. Ou então, preocupa-se com o rendimento dos alunos, dá aulas gratuitas e paga do seu bolso os livros de um estudante pobre.

Este é o país. O nosso. Estes os alunos. E estes ainda os professores. É a partir deles, com eles e para eles que devemos inventar a Nova Pedagogia. Nova e nossa.

Texto digital

Subitamente, espadas estalam dentro de mim. Recomponho-me. O coração arrancou, e um formigueiro invade-me o corpo, inundado por uma maré súbita de sangue. Desperto. Sento-me na cama e reparo que todos os meus sentidos vêm poisar em mim. Renasço. A minha alma apressa-se, despoletada por uma ideia caudalosa. Um estágio é um estágio. Não há que mostrar a mínima vulnerabilidade nem o mais finito desfalecimento. Exige-se uma actuação firme e decidida, a assunção plena do estatuto cívico e docente. E atenção! Em estágio tudo é observável, tudo é medível. Colegas, delegados de disciplina, orientadores pedagógicos, todos eles darão o seu contributo para a avaliação final. Tudo e todos pesam na nota.

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